
Depois da loucura daquela noite, cheguei à escola super cedo. Peguei o ônibus anterior e nem encontrei com Marcos no caminho. Cheguei no mínimo quarenta minutos antes da aula começar. Fiquei andando de um lado para outro, impaciente. Fui seis vezes ao banheiro pra ver como eu estava, arrumei meus cabelos, desarrumei, arrumei novamente. E assim foi por vinte minutos. Até que vi John, a mãe dele e Jéssica chegando pelo portão. Corri até eles e cumprimentei John. Depois sua mãe e por ultimo dei um abraço forte e demorado em Jéssica.
Ela foi com a mãe até a secretaria tratar da transferência, e quando passaram por nós e estavam subindo a passarela que dava acesso ao bloco principal virou-se e jogou um beijo pra mim. Todo mundo viu e ficou olhando com aquela cara de desconfiança. John cutucou minhas costelas com o cotovelo, e disse que ela contou o que havia acontecido ontem. E que ficou super feliz.
Fomos para a sala de aula e cinco minutos antes de começar as aulas Jéssica estava na porta da sala me chamando. Fui até lá pra falar com ela. Ela me abraçou forte e disse que começava no dia seguinte a estudar neste turno. E que hoje não teria aula a tarde então estava livre. Como eu ia pras aulas de violão de John combinei de ver ela a tarde. Depois de mais uns minutos juntos sua mãe chamou e ela foi sorrindo contente. Para mim era o fim de Tom Arron.
Naquela tarde me diverti como nunca. As aulas de violão estavam cada dia melhores, estávamos começando a tirar juntos as musicas, e eu ensaiava tanto durante a noite que estava aprendendo rápido.
Na sexta feira John apareceu com quatro ingressos para o show da banda Surprise. Uma banda local que quase todo mundo que ouvia rock gostava. Combinamos de ir todos juntos, eu, John, Lara e Jéssica. Meu primeiro show de rock.
Nem sei ao certo como contar sobre esta noite, mas é super relevante, já que foi nesta noite que minha vida mudou e eu descobri o que queria ser quando crescesse.
Pouco antes das dez, ouvi a buzina do carro de James. Me despedi da minha mãe e sai. Fechei a porta, coloquei as chaves no bolso e conferi meus documentos. Estava usando uma camiseta da banda que tinha comprado a uns quinze dias e nunca tinha usado, sobre ela uma camisa de manga comprida xadrez, porque fazia frio. Calça jeans e tênis all star. Quando passei pela porta e a fechei, me dei conta de que estava usando perfume de mais. Um perfume legal, que era do meu pai e eu só usava em ocasiões especiais.
Quando cheguei no carro me surpreendi ao ver Carlos dirigindo. Com os mesmos óculos escuros e uma jaqueta de couro pesada, que faziam ele parecer exageradamente desproporcional, corpulento mas com a cabeça pequena. Entrei no carro e vi John no banco da frente e as duas meninas no banco de traz. Lara estava com o cabelo preso para o lado, também usava uma camiseta da banda e tinha no colo um casado verde escuro.que ela gostava bastante e usava seguidamente. Jessica que tinha seus cabelos não muito compridos e rebeldes apenas tinha tratado de bagunçá-los um pouco mais. Vestia uma blusa com listras horizontais em preto e branco e jaqueta jeans por cima. O perfume dela era perfeitamente calculado. A maquiagem das duas era impecável, estavam lindas. Tão lindas que imaginei que seria difícil andar com elas sem que fossem notadas naquela noite.
Depois de uns vinte minutos chegamos até o Saloom. A casa de shows onde a banda ia tocar. A fila devia ter umas trinta pessoas e em poucos minutos estávamos sendo revistados pelos seguranças e entrando pela primeira vez em um show de rock.
O Saloom era conhecido por três coisas: As belas garçonetes, os bons shows e o fato de ser muito seletivo com seu publico. Portanto assim que entramos tinha uma banda de garagem da cidade vizinha, chamada “Os Nervosos” tocando. Era um punk rock que só podia ser definido mesmo como nervoso. A casa estava pouco cheia, pois ainda era cedo, mas já tinha pessoas fazendo pequenas rodas punk, garotos conversando, gente se beijando e a banda tocando. Jéssica segurou minha mão e fomos para perto do palco. John ficou ao lado de Lara e eu sabia que ele queria poder pegar na mão dela, mas não tinha coragem. Da mesma forma que ela esperava que ele fizesse isso. Eu prestei mais atenção nos beijos e em ficar dançando engraçadamente com Jessica do que nos Nervosos, mas as musicas eram legais, falavam sobre política e sobre diversão de adolescentes. Eu estava tão feliz, ao ver Jessica rindo animada das bobagens que eu fazia dançando que nem ligava para o mundo ao redor.
Por volta das onze e meia a banda parou e tocar, e subiu ao palco a segunda banda. Chamava- se “The Fat” e era muito engraçada. Eram todos garotos gordinhos, principalmente o guitarrista. Usavam roupas iguais, como se fossem irmãos gêmeos. Bermudas largas azul marinho e camiseta laranja com uma bola preta e outra bolinha em cima com dois olhinhos, parecido com um boneco de neve, era o símbolo da banda. A The Fat tinha uma qualidade de som ótima. Mas era mais escrachada, e as vezes até mais romântica. Nessa hora Lara veio falar comigo.
- Miguel, você acha que o John gosta de mim?
- Com certeza. Vocês são melhores amigos. Ele adora você!
- Não. Eu falo em outro sentido, como você e a Jéssica por exemplo...
- Oh! Acho que sim. Tenho quase certeza mas ele é tímido de mais...
- Eu sei. Sabe acho que gosto dele também. Será que ele se sentiria mal se eu falasse alguma coisa?
- Não! Ele deve estar até esperando q você faça isso.
- E o que eu devo fazer?
- Vai lá. E abraça ele. Diz algo que de uma chance pra ele chegar. Depois ele deve se virar. Mas espere até vir uma musica boa pra isso
- Morro de vergonha – riu ela. - mas vou tentar.
Durante o show da The Fat encontramos Marcos com mais uns garotos da escola e a casa encheu completamente. Resolvemos galgar nosso lugar mais a frente. Quando chegamos lá John me chamou para o lado:
- O que a Lara te disse?
- Nada de mais irmãozinho. Você vai ter uma chance. Não desperdice ok?
- Chance?
- Confia em mim?
- Ok então. Olha! A Surprise já vai entrar!
A The Fat saiu do palco sob calorosos aplausos e algumas garçonetes fizeram uma dança animada no palco. Jessica repetia sem parar “olha pra mim! Olha nos meus olhos, não para de olhar pra mim!!”. Era incrível a cara de ciúmes dela e quando fechava o punho fazendo menção de me bater. Mas depois que eu ficava encarando ela sem poder olhar pro palco ela sorria e me beijava.
Depois da dança uma das garçonetes, pegou o microfone e bradou animada:
- Boa noite galera! Com vocês agora a maior sensação dos últimos tempos no rock! Suuuurprise!!!!!!!!
O publico entrou em completo delírio, todos gritavam o nome da banda e batiam palmas. O som de uma das guitarras começou numa introdução arrepiante e a bateria foi entrando aos poucos, a cada batida do bumbo o público gritava “hey, hey, hey!”. Só conseguíamos ver a silhueta do guitarrista bem a nossa frente e uma luz sobre a bateria que contrastava com a fumaça de gelo seco que subia do palco. O vocalista assumiu seu posto, ainda no escuro e começou a cantar no mesmo coro do publico enquanto era incorporado o baixo. E quando enfim a segunda guitarra deu seu primeiro acorde as luzes se acenderam e então pudemos vê-los. O guitarrista que estava a nossa frente era magro e alto, tinha cabelos compridos e um cavanhaque que devia ter uns dez centímetros de comprimento amarrado na ponta por um anel metálico. Era sorridente empunhava a guitarra com leveza. O Vocalista era um cara alto com um cabelo loiro e comprido, todo repicado, vestia uma camiseta exatamente igual a minha, mas usava calças largas e tênis de skate. Sem falar nas correntes e pulseiras e no piercing que ele tinha no sábio inferior. O outro guitarrista era mais comportado, vestia uma calça jeans lisa uma camiseta branca com PAZ escrito em vermelho no peito e uma camisa preta aberta por cima. Era mais baixo do que os outros. Usava um cavanhaque razoável e tinha um cabelo de funcionário de escritório contábil. Todo certinho. O baterista já estava sem camisa quando as luzes se acenderam era forte, tinha tatuagens que cobriam os dois braços inteiros e tinha o cabelo completamente raspado e uma cara de poucos amigos. Nesse momento quando eles tocaram a primeira musica todos estávamos eufóricos pulávamos e gritávamos o refrão como loucos. A energia que era passada ali era algo absolutamente indescritível. Na terceira musica um garoto pulando e dançando sem ver o que estava fazendo derrubou um copo de cerveja em cima da Jéssica. Molhou a garota toda. Antes que eu pudesse falar alguma coisa ele pediu desculpas rapidamente e disse a ela que poderia secar aquilo sem problemas. Ela encheu os olhos de lágrimas, tinha se arrumado tanto pra tomar um banho daqueles.
Levei ela para o lado e dei a ela minha camisa de cima.
- Toma, veste isso.
- Obrigada, mas não precisa, nem molhou tanto...
- Molhou sim, vem vamos trocar isso, eu te acompanho até o banheiro.
- Ok
Ela saiu do banheiro vestindo minha camisa, me olhando com uma cara desajeitada
- Ficou linda – menti carinhosamente
- Se você rir eu te bato – disse torcendo o nariz e franzindo a testa.
- Você esta linda! Acredite.
Ficamos ali por um tempo. Depois voltamos com muita dificuldade até John e Lara, e eu vi o exato momento em que ele teve a chance que esperava.
A banda estava tocando uma de suas melhores canções, ela falava sobre um cara que perdeu tudo em função de alguém mas conseguiu fazer valer a pena cada minuto com aquela pessoa. O vocalista da banda sempre dizia que era uma canção de amor de verdade. Enquanto a musica seguia, Lara abraçou John e olhou nos olhos dele sorrindo esperançosa. John sorria também, pateticamente imóvel sem saber ao certo como abraçá-la. Passei por traz deles e antes que ele pudesse me ver empurrei levemente a cabeça dele em direção a ela. Ela fechou os olhos e chegou mais perto. Então finalmente ele entendeu a deixa e a beijou.
Depois disso nos divertimos muito, a banda tocou uma canção da famosa banda Aerosmith, chamada Crazy. Todos ficamos alucinados, principalmente eu e John, que observávamos as guitarras como uma criança que vê seu brinquedo mais amado. Ou como um cão em frente a uma daquelas assadeiras automáticas de frango. Tentávamos memorizar os locais onde o guitarrista pressionava as cordas. Ficávamos embasbacados com toda a destreza dele. E então o garoto desastrado que derrubou a cerveja em Jéssica veio ao nosso lado e disse:
- Baita solo não?
- Perfeito.
- Eu vi que vocês dois fazem gestos com as mãos como se tocassem algo, vocês tocam?
- Bom estou aprendendo viol...
- Tocamos! Guitarra, nós dois – interrompeu John.
- Hm! Legau eu sou baixista. E estou a fim de montar uma banda. Se interessam?
- Lógico! – falamos juntos eu e John.
- Bom, fiquem com meu numero e me liguem pra gente marcar algo. Meu nome é Victor Oaks.
- Muito prazer, sou John e este é o Miguel.
- Ok, e mais uma vez me desculpem pela cerveja. Me empolgo demais as vezes.
- Tudo bem. – respondi, tentando ser sociável.
- Ok. Agora eu vou indo dar uma volta. Até mais ver.
E ele se foi no meio da multidão. Montar uma banda? John por acaso estava ficando louco?
Eu não sabia ao certo o que ele pensava. Mas estava a disposto a entrar na loucura que fosse, tínhamos descoberto que era plenamente possível confiar nos amigos de olhos fechados as vezes. E o fato de ver aqueles caras em cima do palco com certeza desperta em qualquer um a vontade de ser como eles.
Depois de mais ou menos duas horas de show a banda anunciou a “saidera” e tocou um dos seus maiores sucessos. “Durma com quem você quiser.” Que falava sobre sair de casa, e enfrentar o mundo como um homem de verdade. A letra era mais ou menos assim:
Evite as escadas
Nunca ande nas calçadas
Viva uma vida menos complicada
Faça o que você quiser
Deseje a vontade que você tiver
Durma com quem você quiser.
Largue o mundo
Descalce os chinelos
Se descase de tudo
Faça tudo que você quiser
Deseje a vontade que você tiver
Durma hoje com quem você quiser...
Nunca pensei que estas palavras fossem influenciar a cabeça de John tão fortemente como influenciaram, e mais difícil ainda foi pensar que elas seguramente foram responsáveis por minha vida ter seguido como seguiu depois daquele dia.
Depois daquela musica a banda saiu, e o publico em um coro só começo a pedir mais, gritar por biz, gritar o nome da banda. E então a banda voltou, fazendo mais dois covers sensacionais e tocando duas musicas do novo disco que estavam preparando para lançar. O guitarrista jogou uma palheta que ele usou no show e eu meio instintivamente sem ter a clara intenção de pega-la pulei e a alcancei com a ponta dos dedos.
Saímos de lá e como combinado minha mãe foi nos buscar. Jessica teimou em devolver minha camisa mas não deixei que ela fizesse isso. Disse que pegava outro dia lá. Lara e John pareciam contentes de mais juntos. E eu? Bom eu ainda não acreditava que aquilo estava acontecendo. Mas já tinha decidido o que eu ia pedir no natal.
Nesse momento nosso carro parou no centro em um engarrafamento de uns cento e oitenta metros, minha mãe viu um guarda de trânsito e decidiu ir até lá pra ver o que estava acontecendo.
4 comentários:
To amandooo a historiaa...tah ficando mto mto leegaau...to ansiosa pro proximo capitulo ;)
Eu vou reclamar(pra variar), tu não descreveu o baixista da Suprise!
asuhashausasasahsuhas
Junirrrrrrr querido a estoria perfeita :D
Te adoro³³³³³³³
beijos
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