
Eu nunca tinha sentido medo desta forma antes. Uma coisa é você entrar em uma briga para ajudar um amigo. Outra é receber dessa forma o aviso de que um garoto com tamanho de gorila vai estraçalhar sua cara em quinze minutos. Isso mesmo, era o tempo que eu tinha para correr e me esconder, ou para chorar e chamar minha mãe. Porque estas foram as soluções que eu consegui pensar.
Foi nessa hora que John virou o bilhete que Tom tinha me mandado e escreveu algo atraz dele. Mostrou pra mim dando uma piscadela. O bilhete dizia:
“Um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar.”
Ele amassou o bilhete, chamou Tom, e no exato momento em que tom olhou para ele, arremessou com toda força a bolinha que avia feito com o bilhete contra Tom, acertando-o no meio da testa e fazendo a turma toda rir.
A professora parou a explicação e perguntou a John por que ele tinha feito isso. Minha vontade era de esganá-lo, pois isso era uma afronta, ele seria trucidado quando saíssemos da sala. John olhou pra professora com um sorriso sarcástico e disse:
- Porque eu quis. E vou jogar outra ó!
Desta vez ele jogou contra o meu peito mais uma bolinha e novamente piscou para mim.
- Nunca pensei que fosse fazer isso John, mas acho melhor você ir até a direção esfriar essa cabeça. O que deu em você?
- Eu vou mesmo! Essa aula já esta me cansando!
Pegou sua mochila e saiu sorrindo contente. Ele só pode estar louco! Era a única coisa que conseguia pensar. Até que me ocorreu, que se ele escreveu uma resposta para Tom, poderia ter escrito algo para mim. Abri o papel que ele havia jogado em mim, e pra minha surpresa estava escrito:
“Saia normalmente da sala e preste atenção na aula pra me explicar depois. Cérebro contra músculos!”
Eu não sabia o que ele pretendia, mas devia confiar então prestei atenção na aula chata de Biologia, mas não conseguia me acalmar. Quando olhei para o relógio da sala e vi que faltavam dois minutos para tocar o sinal comecei a tremer, o coração acelerava a cada segundo, estava ofegando e suando. Foram os dois minutos mais longos de toda a minha vida.
Quando o sinal tocou, Lara puxou minha mão e disse pra eu ficar tranqüilo. A professora abriu a porta e começamos a sair, tom me empurrou antes que eu chegasse a porta e saiu na minha frente. Depois de recuperar o equilíbrio sai também. E a cena que eu vi era absolutamente inacreditável. John estava bem a frente de Tom que o encarava como se quisesse arrancar-lhe a cabeça. Estavam acompanhados do diretor da escola e do seu Geraldo, o porteiro que a escola vive chamando de segurança. Um senhor baixinho e tão magro que quase voa com o vento. Tem cabelos brancos, mas só dos lados da cabeça e um bigode que parece uma daquelas escovas de lavar roupas. Mal sai na porta e o diretor nos chamou.
- Lerner! Aqui por favor
- Sim diretor?
- Seu amigo John aqui nos mostrou o bilhete que recebeu, e baseado na confusão da ultima sexta-feira resolvemos mudar o senhor Arron de turno e de turma, acabei de telefonar para os pais dele e explicar tudo. Então fique tranqüilo, não admitimos esse tipo de pessoa em nossa escola e sempre que tiver algum problema pode procurar a direção.
- Eu... eu nem sei ao certo o que dizer. Obrigado senhor
- Ok meus jovens, agora preciso ir o almoço nos espera! Sugiro que façam o mesmo, com exceção de você senhor Arron, por favor me acompanhe até a portaria, você vai esperar seu pai lá.
John olhou para mim e dise "cheque mate".
Eu não conseguia acreditar, John tinha no rosto um sorriso que ninguém conseguiria tirar de lá por semanas. Lara começou a rir com ele, e no fim estávamos todos rindo juntos. Decididamente cérebro é uma ótima arma contra músculos.
Todos os alunos da sala que presenciaram a cena estavam perplexos, alguns falavam que era preciso muito mais do que isso para evitar que Tom nos pegasse, outros perguntavam como a gente conseguiu isto. John foi a sensação da escola por uns três dias. Todas as crianças que eram ameaçadas por Tom Arron e obrigadas a pagar o lanche dele ou fazer seus deveres viraram verdadeiros fãs de John Quirriel. E eu? Bom, sentia o maior orgulho do mundo por poder andar ao lado dele.
Naquela semana que se seguiu eu comecei a aprender os primeiros acordes de violão, John era um bom professor, e na sexta-feira eu já estava tocando quase uma musica inteira. Me orgulhava muito disso.
Vi a irmã de John todos os dias em que estive lá, principalmente nos dias em que ela não fazia aulas de desenho. Acabamos conversando e vendo que tínhamos mais em comum do que eu pensava. Ela era engraçada, mas sabia a hora de falar com seriedade, era impecável pra ouvir musicas e me emprestou até alguns CDs das bandas que eu menos conhecia. Eu ficava encantado toda a vez que ela mordia o lápis ou mexia nos cabelos, ela era tímida, mas eu vi ela sorrir umas três vezes. Naquele dia quando nos despedimos e ela beijou meu rosto eu jurei nunca mais lavar a face direita de novo. Ficamos bons amigos, o que pra mim era ótimo. Me sentir perto, me sentir parte da vida dela.
Na segunda-feira da semana seguinte, um dos amigos de Tom veio até a minha sala e entregou um bilhete para mim e para John, onde estava escrito:
“Raios não acertam o mesmo lugar, mas podem cair muito perto!”
O que é que ele estava tentando dizer? O que ele ia fazer? Nenhum de nós sabia, até a noite quando John ligou para a minha casa, dizendo que o raio havia atingido mesmo um lugar próximo.
- Jessica me contou que Tom tem seguido ela essa semana inteira, e hoje ele foi falar com ela. Ela não me disse o que ele falou, mas ela não parece muito bem.
- A gente poderia ligar pra direção da escola, pedir a troca de turno da Jessica, passar ela pro turno da manhã com a gente.
- Mas ela tem as aulas de desenho.
- Coloca ela no telefone.
Depois de uns instantes de telefone quieto ela pegou a chamada
- alô?
- Oi, tudo certo? John me contou sobre o Tom. Você esta bem?
- Não gostaria de falar isso por telefone. Você pode me encontrar naquela praça no centro?
- Mas... – pensei um pouco na possibilidade - ok, meia hora até chegar lá. Mas toma cuidado na rua
- Ta certo querido. Até daqui a pouco.
Ela desligou o telefone. Como eu faria pra sair a essa hora sem minha mãe saber? Eram quase nove da noite, minha mãe ficava na sala vendo televisão até quase meia noite meu quarto era nos fundos do segundo andar. Então resolvi descer pela janela. Amarrei um lençol em outro, e na colcha da cama prendendo a ponta dela no guarda roupas, e fui descendo. Meus braços não agüentavam e quando eu estava a uns dois metros do chão não resisti e larguei o lençol. Cai em cima das flores da minha mãe no jardim, e com o estrondo todos os cães da vizinhança começaram a latir. Corri para o portão e segui pela rua o mais rápido que pude, antes que minha mãe pudesse me ver, caso ela tivesse ouvido o barulho.
Fui a pé até a praça central, nunca tinha saído durante a noite, então não sabia o que eu poderia encontrar. A cada carro que passava eu ficava mais preocupado, mas fui avançando. Era importante e eu estava aprendendo a eleger minhas prioridades.
Cheguei na praça pouco mais de meia hora depois de ter saído de casa, esperei uns cinco minutos até ver Jessica chegando. Havia um casal sentado em um banco do outro lado da praça, um rapaz sentado na beirada do chafariz mexendo com algo nas mãos e dois homens no canto falando baixo. Ela chegou andando de vagar, com cuidado, quando me viu abriu um sorriso pequeno, mas sincero. Correu na minha direção e me abraçou forte. Então me contou sobre tudo que tinha acontecido, sobre as investidas de Tom falando que ela ia ser dele e que ele ia fazer tudo que precisasse pra isso.
- Então passa a estudar de manhã, com a gente.
- Não posso, teria que mudar tudo, as aulas de desenho, as coisas todas
- Muda. Eu vou junto na turma nova com você se precisar. No desenho e tudo. Assim aprendo a desenhar também.
- Haha! Não precisa. Eu preciso mesmo é de um motivo forte pra mudar pro turno da tarde.
Ela falou Isso de uma forma incrivelmente hipnotizadora. A luz da lua, a pesar do frio estava vestida de uma forma tão irresistível, e o cabelo louco dela que balançava com o vendo. Ela era a garota mais “hard” e mais suave tudo ao mesmo tempo. E não sei de onde tive coragem, mas disse a única coisa certa que passou pela minha cabeça naquele momento.
- Eu tenho um motivo forte. Tem uma coisa que poderíamos fazer todos os dias.- disse eu, completamente enrubescido.
- Que motivo?
Sem dizer mais nada, me aproximei dela e beijei seus lábios de vagar enquanto a abraçava. Foi como sonhar o sonho mais legal da minha vida. Eu não tinha beijado muitas garotas, na verdade uma só. Sei que é algo anormal pra um garoto de dezessete anos, mas desta vez foi diferente, principalmente porque ela me abraçou e continuou com o beijo. Ficamos juntos naquele banco na praça por cerca de uma hora e meia, conversando sobre as coisas, sobre a surra que eu e John tínhamos tomado e ainda deixava marcas. Sobre os discos que ela me emprestou, sobre os desenhos que ela fazia.
- Amanha de manha eu começo então? – disse ela sorrindo inacreditavelmente linda.
- Com certeza. Vem vou te levar até o ponto de ônibus.
- É. Eu vou precisar acordar cedo mesmo amanhã.
Levei ela até o ponto de ônibus sem querer que ela fosse embora. O ultimo beijo dela ficou na memória das minhas papilas gustativas por horas. E eu não dormi quase nada naquela noite. Nos momentos em que dormi só consegui sonhar com o que aconteceu. Gritei de cara no travesseiro, pulei, cantei. Estava feliz. Uma felicidade que não aparecia em mim a bastante tempo.
Mal podia esperar pelo dia seguinte pra vê-la denovo.
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