
Naquela tarde nos encontramos com Daniel e Lara e terminamos o trabalho, Era uma apresentação digna de uma nota máxima, tínhamos pesquisado todos os tipos de conexões elétricas e formas de implantação de sistemas em máquinas. Estávamos prontos para a apresentação da terça feira. E eu confesso que nunca havia me aplicado tanto a um trabalho. E também nunca tinha me divertido tanto.
O final de semana terminou e mesmo com todas as alegrias que vieram com a resposta sim de Jéssica e a conclusão do trabalho eu me sentia muito só, sentia um certo peso, o quadro de Carlos estava melhor no hospital mas ele ainda estava na UTI.
No domingo a noite deitei na cama e fiquei olhando pra fora da janela, com meu violão na mão tocando os acordes mais bonitos que eu conhecia. Meio sem querer eu percebi uma sequência que ficava legal. Comecei a repetir ela ainda olhando para fora e pra minha surpresa percebi que poderia cantar algo junto com ela. Me ajeitei na cama pra conseguir tocar melhor e peguei meu caderno e uma caneta. Comecei a rabiscar umas palavras, escrevia, tocava, escrevia e tocava novamente. E assim foi, por umas duas horas pensando nos problemas, em Carlos na cama de hospital, no olhar de Jéssica quando me disse sim. No pequeno robô que eu e John havíamos feito pra demonstrar como a corrente elétrica faz um motorzinho funcionar, pensei no pai que eu nunca tive, na minha mãe e na vida monótona que agora ela levava, pensei no show, em tocar guitarra, nos sonhos que eu tinha pro futuro e pensei na pessoa melhor que eu havia me tornado depois que resolvi ficar do lado de John e Lara naquele dia.
Eu percebi que tinha me tornado muito diferente da maioria das pessoas da minha idade, mais maduro e mais seguro.
A musica ao final daquela noite saiu mais ou menos desse jeito:
Eu sou
Diferente de tudo que todo mundo vê
Eu vejo
O mundo diferente do que todos podem ver
Não vou
Andar na mesma direção que todos querem ir
Eu vou
Pro lado que eu quiser e comigo você pode ir
Talvez porque ninguém
Tenha tentado me explicar
Eu não sou
Do tipo que vai onde todo mundo vai
Eu cansei
Daquelas festas e do barulho que toda essa gente faz
Eu não posso
Dizer a verdade toda vez que eu falar
Já pensou
Que assim é mais fácil de se enganar (com o que vai dizer)
Talvez porque ninguém
Tenha tentado me explicar
Que quando você procura alguém
É mais difícil de se encontrar
É tão difícil de encontrar você.
Quem eu precisava conhecer? Do que ela estava Falando? Tomei minha água e fui para o quarto porque eu sabia muito bem que minha mãe não gostava de ser interrompida ao telefone.
Acordei atrasado na segunda feira e como vi que perderia o ônibus decidi ir de skate para a aula. Cheguei na escola uns dez minutos atrasado. Meia hora depois do horário que normalmente chegaria. Quando entrei na sala a professora falava sobre uma mudança de planos.
- A escola fará uma espécie de feira de ciências, onde vocês irão expor os trabalhos que fizeram para um publico e uma comissão julgadora. Os melhores trabalhos de cada grupo de séries receberão uma premiação. – contou ela animada.
John e Lara me chamaram para contar o que a professora havia dito antes. Pareciam tão empolgados e cheios de idéias que resolvi não contrariá-los.
Matamos a aula de educação física e duas aulas de religião naquele dia projetando como iríamos expor o trabalho e fazendo os cartazes.
- A exposição começa na sexta. Então temos até a quinta-feira a noite pra deixar tudo pronto na sala. Ficamos na sala da minha irmã. – Disse John contente puxando uns fios que sobravam do lado do painel que construímos com todas as sobras de peças e fios do projeto.
Na terça e na quarta trabalhamos com o auxilio de James para fazer um motorzinho de um carrinho velho de controle remoto que eu tinha mover uma pequena esteira que levava pedras em movimentos circulares. Usaríamos isso para mostrar que motores elétricos podem ser usados em indústrias e pequenas empresas de transportes e logística. Além do painel que Lara e Daniel construíram para mostrar como funcionam os interruptores das lâmpadas que temos em casa.
Na quinta-feira a tarde concluímos tudo. Mortos de cansaço, mas tão orgulhosos do que tínhamos feito que nem nos importávamos mais.
A servente do colégio dona Marta, uma senhora baixinha com uma cara amigável e olhinhos brilhantes, sempre sorridente apareceu magicamente com biscoitos e um suco de laranja como se adivinhasse que estávamos a ponto de desmaiar.
- Nossa deu um trabalhão em? Mas ficou ótimo, acho que vão tirar uma boa nota com isso.
- Deus queira dona marta, Deus queira – Disse Daniel enfiando um biscoito inteiro na boca.
- Rimos muito depois disso porque ele acabou se afogando com o biscoito e derramando suco nas calças.
Colocamos tudo na sala de aula antes das nove horas da noite e fomos para casa.
Na sexta feira foi aberta a feira de ciências com uma daquelas cerimônias com a presença dos pais, da direção da escola e todos os alunos reunidos. Apresentações das criancinhas do jardim de infância e no final uma banda formada por quatro alunos do ultimo ano tocou algumas musicas. John disse que da próxima vez estaremos lá em cima daquele palco também.
As apresentações começaram e duraram até o domingo à noite, tivemos que revezar em duplas para evitar o cansaço. Eu e Lara, John e Daniel.
No começo foi um pouco complicado explicar aquelas coisas todas, mas na tarde da sexta-feira já estávamos dando um show. Vimos todo o tipo de trabalho nas horas vagas, Jéssica apresentou um trabalho sobre massa corporal e peso, você dizia a sua altura e seu peso e elas calculavam na hora se você estava no peso ideal ou quanto estava acima ou abaixo. Tinham feito uns panfletos sobre obesidade e anorexia. Um trabalho bem interessante. Outro numa sala dos fundos acabou deixando o clima meio pesado, era um trabalho sobre queijos e derivados do leite. Os alunos levaram para a sala uma infinita variedade de queijos e coisas do gênero. Dos mais mal cheirosos aos mais saborosos. Experimentei quase tudo, mas o cheiro da sala era realmente insuportável. Uma mistura de chulé com cheiro de terra quando chove.
No sábado a tarde Lara perguntou o que John falava sobre ela, sobre o show. E eu me dei conta que não tinha conversado quase nada com ele sobre isso. Ele parecia feliz e tudo o mais, mas não sei ao certo o que ele pensava. Ela me contou que foi uma das maiores alegrias dela e que ela estava feliz demais com tudo.
- O único problema é que John parece meio distante.
- Deve ser por causa do Carlos e também do trabalho, mal consegui ver a Jéssica de domingo passado pra cá.
- É. Mas conversa com ele Miguel? Vê com ele o que ele pensa e porque esta assim...
- Deixa comigo.
Em dado momento quando almoçávamos Lara e Daniel foram para a sala do trabalho e eu e John conversamos, mas não consegui tocar no assunto. Resolvi deixar tudo pra segunda feira e aproveitar bem pra me divertir com ele.
Fomos para a primeira sala do corredor onde estudávamos onde Marcos estava apresentando o trabalho dele. Sobre acidentes nos esportes. Passavam vídeos e mostravam fotografias de fraturas e lesões causadas por esportistas mal preparados ou que fizeram algo errado na hora de executar sua série ou tentar fazer um gol. Os vídeos de vale tudo eram os melhores. Para minha surpresa a comissão julgadora havia dado nota oito para eles, pelo incentivo a pratica correta de esportes.
- Hey John cuidado! – alguém gritou.
Nesse momento senti todo o sangue do meu corpo gelar. Atrás de mim projetava-se o ainda maior e mais maciço corpo de Tom Arron. Como eu poderia ter esquecido que ele com certeza estaria ali?
- Venha John vamos sair daqui
- Ah não vão não. Temos contas a acertar. Temos MUITO que “conversar”.
- Não, não temos. Você teve o que mereceu. E se esta pensando que pode nos ameaçar só porque somos menores do que você vá em frente. Mas me bata bastante e prove que você tem coragem.
– Esbravejou John empurrando o pesado Tom em sentido de provocação.
Tom pegou John pelo colarinho e o ergueu do chão, era possível ver seus pezinhos sacudirem. Olhei para os lados e começava a se formar um pequeno grupo de alunos ali. Enquanto tom xingava John colando seu nariz na cara dele John reclamava o mau hálito dele e dizia que não iria beijá-lo. Nessas horas é que se escuta aquelas musicas na cabeça. Você sabe que pode fazer algo e principalmente que deve fazer isso. Decididamente, tínhamos tudo a perder, mas antes que as provocações de John resultassem em fraturas nas costelas eu tomei uma atitude drástica. Agarrei a primeira cadeira que consegui ver e no meio de todo aquele bolo de pessoas girei-a o mais forte que consegui até senti-la colidir com as costas de Tom, que largou John e caiu de joelhos naquele mesmo instante sem ar, tentando se recuperar e agarrar as pernas de John que se esquivava e pisava nas mãos dele.
Saímos correndo da sala e eu disse a John que seria melhor avisar a direção.
- Que nada! Vai ser divertido, ele vai nos caçar. Só temos que cuidar das meninas
- Não gosto muito disso. Mas confesso que foi divertido ver você tirar sarro da cara dele.
Corremos para o nosso trabalho e contamos tudo a Lara e Daniel.
- Esplendido! - Gritava o garoto tentando pular da cadeira de rodas animado. – Eu cansei de tomar tabefes e petelecos daquele marmanjo. Vocês deram uma lição nele!
- É e agora os dois espertinhos terão que fugir dele por um dia e meio dentro dessa escola, sem contar os amigos e ainda terão que vigiar a Jéssica. – Discutiu Lara nervosa.
- Alguém falou em mim? – perguntou Jéssica passando o braço em torno da minha cintura.
Contamos a ela o que tinha acontecido e ela disse que seria melhor não ir até a direção.
- Então deixa ele vir! Se ele aparecer aqui na sala a gente chama a direção. Alem do mais a comissão julgadora esta vindo logo e é bem capaz de pegarem ele aqui dentro.
Eu sentia uma mistura incrível de medo e adrenalina, principalmente toda vez que John contava meio fantasioso como tudo tinha ocorrido:
“- Vocês precisavam ver, enquanto eu lutava com o cara pela frente o Miguel pegou uma cadeira e acertou ele no meio da cabeça! E antes do Tom cair, enquanto eu chutava ele com toda a minha força o Miguel deu-lhe uma gravata e fez ele deitar no chão! Não é Miguel?”
O boato de que havíamos dado uma surra em Tom Arron se espalhou como o vento e logo éramos cumprimentados pelos garotos do time de basquete e chegamos a dar autógrafos nas lancheiras de três meninos da primeira série que apanhavam diariamente de Tom na escola.
No domingo de manha, já cansados e completamente sem animo estávamos todos sentados ao redor do estande onde apresentávamos o trabalho, tomando uma coca-cola que compramos juntando as moedas de todos nós. John e Lara trocavam uns carinhos sentados mais atrás,, perto do motorzinho elétrico. Enquanto eu e Daniel conversávamos sobre o fenômeno que se espalhava com esse boato da briga e Jéssica deitava quase que dormindo sobre o meu colo. Fiquei ilhando pra ela e lhe fazendo um cafuné. Percebi que fazia alguns dias que eu não mostrava a ela o mesmo apego de antes. Com certeza não era isso que ela esperava de mim quando me disse sim. Então resolvi fazer alguma coisa pra ver aquele sorriso no rosto dela de novo.
Olhei para Daniel e disse:
- Você sabia que eu estou com a garota mais linda do mundo deitada sobre o meu colo??
Jéssica abriu os olhos e ficou me encarando desconfiada.
- E tem mais meu caro Daniel. Acho que eu ainda me caso com essa guria um dia. O problema é que eu não sei como fazer ela rir... Você tem alguma idéia? – Pisquei para ele, que entendendo tudo respondeu prontamente:
- Faz umas cócegas nela.
Deslizei minha mão do cabelo dela pelo braço até chegar na cintura, ela me olhou com um olhar de desespero.
- É mas tem que ser aquelas cócegas de fazer rir muito não é? Mais ou menos... ASSIM!
Nesse momento comecei a fazer cócegas nela, ela ria tanto que não tinha forças pra tirar minhas mãos dela. Tentava se esquivar e me pedia pra parar, até que acabamos caindo no chão e rindo um monte com tudo.
- Você esta bem??
- É eu devo estar, disse ela se levantando com as mãos nos cabelos e ainda rindo, corada.
- Eu fiz você rir e é isso que importa.
- Seu bobo. Vamos lá fora dar uma volta?
Deu certo. Por mais idiota que tenha sido minha atitude de fazer cócegas, foi como dizer “hey eu estou aqui e eu te amo garota!
Passei o resto da manhã com ela, até uma das colegas dela vir chamar porque a comissão julgadora estava na nossa sala. Na porta da sala eu a beijei e desejei sorte. Entramos e eu fui para o meu lugar.
- Olha só. Todos os professores mais carrascos acho que não temos chances.
- Cala a boca pessimista! – bradou John atordoado. – Ninguém é melhor do que nós aqui. Olha pra tudo que fizemos. Nota nove no mínimo. A medalha é nossa!.
Quando a comissão passou pela mesa de Jéssica pude ver a nota nove feita no pequeno cartão que cada grupo recebeu. Ela me olhava feliz e fazia sinais positivos desejando sorte pra gente.
Enfim chegou a nossa vez. A primeira professora que viu o trabalho olhou tudo com cautela e logo foi anotando algo com um sorrisinho no canto da boca.
- Muito bem garotos, vocês se empenharam um tanto aqui não é? Disse o diretor da escola mexendo no pequeno motor elétrico da esteira que John havia feito.
- Por favor senhor, não toque nisso. – Disse John dando-lhe uma piscadela
- Oh! Desculpe. Bom vamos lá apresentem-nos isso que chamam de o maravilhoso mundo da corrente elétrica.
E de fato. Tornamos maravilhoso. Tanto que todos que viram a apresentação aplaudiram em pé. Tanto a teoria quanto a prática foram perfeitas. De tanto esforço pra fazer acabamos entendendo do assunto e respondendo a altura todas as perguntas feitas. Eu não acreditei quando foi escrita uma nota dez em azul no cartão.
Isso significava que era um dez positivo. Estávamos a meio caminho da melhor nota do ano. Da medalha e do premio.
Alem disso a professora de educação artística resolveu nos dar um bônus nas notas pelo painel de peças e fios. Disse que achou muito interessante e criativo. Tanto que queria comprar para a sala da casa dela.
- Falaremos de negócios depois. – Disse John apertando a mão da professora.
T udo correu perfeitamente, até o fim do dia quando na ida para casa tivemos que cruzar com Tom Arron e seus amigos. Na frente da escola toda. Os momentos de glória teriam fim?



