quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Capítulo Sete - O coração, A coragem e o Orgulho.


Naquela tarde nos encontramos com Daniel e Lara e terminamos o trabalho, Era uma apresentação digna de uma nota máxima, tínhamos pesquisado todos os tipos de conexões elétricas e formas de implantação de sistemas em máquinas. Estávamos prontos para a apresentação da terça feira.  E eu confesso que nunca havia me aplicado tanto a um trabalho. E também nunca tinha me divertido tanto.

 

O final de semana terminou e mesmo com todas as alegrias que vieram com a resposta sim de Jéssica e a conclusão do trabalho eu me sentia muito só, sentia um certo peso, o quadro de Carlos estava melhor no hospital mas ele ainda estava na UTI.

No domingo a noite deitei na cama e fiquei olhando pra fora da janela, com meu violão na mão tocando os acordes mais bonitos que eu conhecia. Meio sem querer eu percebi uma sequência que ficava legal. Comecei a repetir ela ainda olhando para fora e pra minha surpresa percebi que poderia cantar algo junto com ela. Me ajeitei na cama pra conseguir tocar melhor e peguei meu caderno e uma caneta. Comecei a rabiscar umas palavras, escrevia, tocava, escrevia e tocava novamente. E assim foi, por umas duas horas pensando nos problemas, em Carlos na cama de hospital, no olhar de Jéssica quando me disse sim. No pequeno robô que eu e John havíamos feito pra demonstrar como a corrente elétrica faz um motorzinho funcionar, pensei no pai que eu nunca tive, na minha mãe e na vida monótona que agora ela levava, pensei no show, em tocar guitarra, nos sonhos que eu tinha pro futuro e pensei na pessoa melhor que eu havia me tornado depois que resolvi ficar do lado de John e Lara naquele dia.

Eu percebi que tinha me tornado muito diferente da maioria das pessoas da minha idade, mais maduro e mais seguro.

A musica ao final daquela noite saiu mais ou menos desse jeito:

 

Eu sou

Diferente de tudo que todo mundo vê

Eu vejo

O mundo diferente do que todos podem ver

 

Não vou

Andar na mesma direção que todos querem ir

Eu vou

Pro lado que eu quiser e comigo você pode ir

 

Talvez porque ninguém

Tenha tentado me explicar


Eu não sou

Do tipo que vai onde todo mundo vai

Eu cansei

Daquelas festas e do barulho que toda essa gente faz

 

Eu não posso

Dizer a verdade toda vez que eu falar

Já pensou

Que assim é mais fácil de se enganar (com o que vai dizer)

 

Talvez porque ninguém

Tenha tentado me explicar

Que quando você procura alguém

É mais difícil de se encontrar

É tão difícil de encontrar você.

Acabei adormecendo sobre o violão e acordei no meio da madrugada assustado. Decidi descer pra tomar uma água e ouvi minha mãe no quarto falando ao telefone. Ela parecia desesperada e eu tinha certeza de que estava chorando quando disse “mas o Miguel precisa conhecê-lo!”

Quem eu precisava conhecer? Do que ela estava Falando? Tomei minha água e fui para o quarto porque eu sabia muito bem que minha mãe não gostava de ser interrompida ao telefone.

Acordei atrasado na segunda feira e como vi que perderia o ônibus decidi ir de skate para a aula. Cheguei na escola uns dez minutos atrasado. Meia hora depois do horário que normalmente chegaria. Quando entrei na sala a professora falava sobre uma mudança de planos.

  - A escola fará uma espécie de feira de ciências, onde vocês irão expor os trabalhos que fizeram para um publico e uma comissão julgadora. Os melhores trabalhos de cada grupo de séries receberão uma premiação. – contou ela animada.

John e Lara me chamaram para contar o que a professora havia dito antes. Pareciam tão empolgados e cheios de idéias que resolvi não contrariá-los.

Matamos a aula de educação física e duas aulas de religião naquele dia projetando como iríamos expor o trabalho e fazendo os cartazes.

- A exposição começa na sexta. Então temos até a quinta-feira a noite pra deixar tudo pronto na sala. Ficamos na sala da minha irmã. – Disse John contente puxando uns fios que sobravam do lado do painel que construímos com todas as sobras de peças e fios do projeto.

Na terça e na quarta trabalhamos com o auxilio de James para fazer um motorzinho de um carrinho velho de controle remoto que eu tinha mover uma pequena esteira que levava pedras em movimentos circulares. Usaríamos isso para mostrar que motores elétricos podem ser usados em indústrias e pequenas empresas de transportes e logística. Além do painel que Lara e Daniel construíram para mostrar como funcionam os interruptores das lâmpadas que temos em casa.

Na quinta-feira a tarde concluímos tudo. Mortos de cansaço, mas tão orgulhosos do que tínhamos feito que nem nos importávamos mais.

A servente do colégio dona Marta, uma senhora baixinha com uma cara amigável e olhinhos brilhantes, sempre sorridente apareceu magicamente com biscoitos e um suco de laranja como se adivinhasse que estávamos a ponto de desmaiar.

- Nossa deu um trabalhão em? Mas ficou ótimo, acho que vão tirar uma boa nota com isso.

- Deus queira dona marta, Deus queira – Disse Daniel enfiando um biscoito inteiro na boca.

- Rimos muito depois disso porque ele acabou se afogando com o biscoito e derramando suco nas calças.

Colocamos tudo na sala de aula antes das nove horas da noite e fomos para casa.

Na sexta feira foi aberta a feira de ciências com uma daquelas cerimônias com a presença dos pais, da direção da escola e todos os alunos reunidos. Apresentações das criancinhas do jardim de infância e no final uma banda formada por quatro alunos do ultimo ano tocou algumas musicas. John disse que da próxima vez estaremos lá em cima daquele palco também.

As apresentações começaram e duraram até o domingo à noite, tivemos que revezar em duplas para evitar o cansaço. Eu e Lara, John e Daniel.

No começo foi um pouco complicado explicar aquelas coisas todas, mas na tarde da sexta-feira já estávamos dando um show. Vimos todo o tipo de trabalho nas horas vagas, Jéssica apresentou um trabalho sobre massa corporal e peso, você dizia a sua altura e seu peso e elas calculavam na hora se você estava no peso ideal ou quanto estava acima ou abaixo. Tinham feito uns panfletos sobre obesidade e anorexia. Um trabalho bem interessante. Outro numa sala dos fundos acabou deixando o clima meio pesado, era um trabalho sobre queijos e derivados do leite. Os alunos levaram para a sala uma infinita variedade de queijos e coisas do gênero. Dos mais mal cheirosos aos mais saborosos. Experimentei quase tudo, mas o cheiro da sala era realmente insuportável. Uma mistura de chulé com cheiro de terra quando chove.

No sábado a tarde Lara perguntou o que John falava sobre ela, sobre o show. E eu me dei conta que não tinha conversado quase nada com ele sobre isso. Ele parecia feliz e tudo o mais, mas não sei ao certo o que ele pensava. Ela me contou que foi uma das maiores alegrias dela e que ela estava feliz demais com tudo.

- O único problema é que John parece meio distante.

- Deve ser por causa do Carlos e também do trabalho, mal consegui ver a Jéssica de domingo passado pra cá.

- É. Mas conversa com ele Miguel? Vê com ele o que ele pensa e porque esta assim...

- Deixa comigo.

Em dado momento quando almoçávamos Lara e Daniel foram para a sala do trabalho e eu e John conversamos, mas não consegui tocar no assunto. Resolvi deixar tudo pra segunda feira e aproveitar bem pra me divertir com ele.

Fomos para a primeira sala do corredor onde estudávamos onde Marcos estava apresentando o trabalho dele. Sobre acidentes nos esportes. Passavam vídeos e mostravam fotografias de fraturas e lesões causadas por esportistas mal preparados ou que fizeram algo errado na hora de executar sua série ou tentar fazer um gol. Os vídeos de vale tudo eram os melhores. Para minha surpresa a comissão julgadora havia dado nota oito para eles, pelo incentivo a pratica correta de esportes.

- Hey John cuidado! – alguém gritou.

Nesse momento senti todo o sangue do meu corpo gelar. Atrás de mim projetava-se o ainda maior e mais maciço corpo de Tom Arron. Como eu poderia ter esquecido que ele com certeza estaria ali?

- Venha John vamos sair daqui

- Ah não vão não. Temos contas a acertar. Temos MUITO que “conversar”.

- Não, não temos. Você teve o que mereceu. E se esta pensando que pode nos ameaçar só porque somos menores do que você vá em frente. Mas me bata bastante e prove que você tem coragem.

– Esbravejou John empurrando o pesado Tom em sentido de provocação.

Tom pegou John pelo colarinho e o ergueu do chão, era possível ver seus pezinhos sacudirem. Olhei para os lados e começava a se formar um pequeno grupo de alunos ali. Enquanto tom xingava John colando seu nariz na cara dele John reclamava o mau hálito dele e dizia que não iria beijá-lo. Nessas horas é que se escuta aquelas musicas na cabeça. Você sabe que pode fazer algo e principalmente que deve fazer isso. Decididamente, tínhamos tudo a perder, mas antes que as provocações de John resultassem em fraturas nas costelas eu tomei uma atitude drástica. Agarrei a primeira cadeira que consegui ver e no meio de todo aquele bolo de pessoas girei-a o mais forte que consegui até senti-la colidir com as costas de Tom, que largou John e caiu de joelhos naquele mesmo instante sem ar, tentando se recuperar e agarrar as pernas de John que se esquivava e pisava nas mãos dele.

Saímos correndo da sala e eu disse a John que seria melhor avisar a direção.

- Que nada! Vai ser divertido, ele vai nos caçar. Só temos que cuidar das meninas

- Não gosto muito disso. Mas confesso que foi divertido ver você tirar sarro da cara dele.

Corremos para o nosso trabalho e contamos tudo a Lara e Daniel.

- Esplendido! - Gritava o garoto tentando pular da cadeira de rodas animado. – Eu cansei de tomar tabefes e petelecos daquele marmanjo. Vocês deram uma lição nele!

- É e agora os dois espertinhos terão que fugir dele por um dia e meio dentro dessa escola, sem contar os amigos e ainda terão que vigiar a Jéssica. – Discutiu Lara nervosa.

- Alguém falou em mim? – perguntou Jéssica passando o braço em torno da minha cintura.

Contamos a ela o que tinha acontecido e ela disse que seria melhor não ir até a direção.

- Então deixa ele vir! Se ele aparecer aqui na sala a gente chama a direção. Alem do mais a comissão julgadora esta vindo logo e é bem capaz de pegarem ele aqui dentro.

Eu sentia uma mistura incrível de medo e adrenalina, principalmente toda vez que John contava meio fantasioso como tudo tinha ocorrido:

“- Vocês precisavam ver, enquanto eu lutava com o cara pela frente o Miguel pegou uma cadeira e acertou ele no meio da cabeça! E antes do Tom cair, enquanto eu chutava ele com toda a minha força o Miguel deu-lhe uma gravata e fez ele deitar no chão! Não é Miguel?”

O boato de que havíamos dado uma surra em Tom Arron se espalhou como o vento e logo éramos cumprimentados pelos garotos do time de basquete e chegamos a dar autógrafos nas lancheiras de três meninos da primeira série que apanhavam diariamente de Tom na escola.

No domingo de manha, já cansados e completamente sem animo estávamos todos sentados ao redor do estande onde apresentávamos o trabalho, tomando uma coca-cola que compramos juntando as moedas de todos nós. John e Lara trocavam uns carinhos sentados mais atrás,, perto do motorzinho elétrico. Enquanto eu e Daniel conversávamos sobre o fenômeno que se espalhava com esse boato da briga e Jéssica deitava quase que dormindo sobre o meu colo. Fiquei ilhando pra ela e lhe fazendo um cafuné. Percebi que fazia alguns dias que eu não mostrava a ela o mesmo apego de antes. Com certeza não era isso que ela esperava de mim quando me disse sim. Então resolvi fazer alguma coisa pra ver aquele sorriso no rosto dela de novo.

Olhei para Daniel e disse:

- Você sabia que eu estou com a garota mais linda do mundo deitada sobre o meu colo??

Jéssica abriu os olhos e ficou me encarando desconfiada.

- E tem mais meu caro Daniel. Acho que eu ainda me caso com essa guria um dia. O problema é que eu não sei como fazer ela rir... Você tem alguma idéia? – Pisquei para ele, que entendendo tudo respondeu prontamente:

- Faz umas cócegas nela.

Deslizei minha mão do cabelo dela pelo braço até chegar na cintura, ela me olhou com um olhar de desespero.

- É mas tem que ser aquelas cócegas de fazer rir muito não é? Mais ou menos... ASSIM!

Nesse momento comecei a fazer cócegas nela, ela ria tanto que não tinha forças pra tirar minhas mãos dela. Tentava se esquivar e me pedia pra parar, até que acabamos caindo no chão e rindo um monte com tudo.

- Você esta bem??

- É eu devo estar, disse ela se levantando com as mãos nos cabelos e ainda rindo, corada.

- Eu fiz você rir e é isso que importa.

- Seu bobo. Vamos lá fora dar uma volta?

Deu certo. Por mais idiota que tenha sido minha atitude de fazer cócegas, foi como dizer “hey eu estou aqui e eu te amo garota!

Passei o resto da manhã com ela, até uma das colegas dela vir chamar porque a comissão julgadora estava na nossa sala. Na porta da sala eu a beijei e desejei sorte. Entramos e eu fui para o meu lugar.

- Olha só. Todos os professores mais carrascos acho que não temos chances.

- Cala a boca pessimista! – bradou John atordoado. – Ninguém é melhor do que nós aqui. Olha pra tudo que fizemos. Nota nove no mínimo. A medalha é nossa!.

Quando a comissão passou pela mesa de Jéssica pude ver a nota nove feita no pequeno cartão que cada grupo recebeu. Ela me olhava feliz e fazia sinais positivos desejando sorte pra gente.

Enfim chegou a nossa vez. A primeira professora que viu o trabalho olhou tudo com cautela e logo foi anotando algo com um sorrisinho no canto da boca.

- Muito bem garotos, vocês se empenharam um tanto aqui não é? Disse o diretor da escola mexendo no pequeno motor elétrico da esteira que John havia feito.

- Por favor senhor, não toque nisso. – Disse John dando-lhe uma piscadela

- Oh! Desculpe. Bom vamos lá apresentem-nos isso que chamam de o maravilhoso mundo da corrente elétrica.

E de fato. Tornamos maravilhoso. Tanto que todos que viram a apresentação aplaudiram em pé. Tanto a teoria quanto a prática foram perfeitas. De tanto esforço pra fazer acabamos entendendo do assunto e respondendo a altura todas as perguntas feitas. Eu não acreditei quando foi escrita uma nota dez em azul no cartão.

Isso significava que era um dez positivo. Estávamos a meio caminho da melhor nota do ano. Da medalha e do premio.

Alem disso a professora de educação artística resolveu nos dar um bônus nas notas pelo painel de peças e fios. Disse que achou muito interessante e criativo. Tanto que queria comprar para a sala da casa dela.

- Falaremos de negócios depois. – Disse John apertando a mão da professora.

T udo correu perfeitamente, até o fim do dia quando na ida para casa tivemos que cruzar com Tom Arron e seus amigos. Na frente da escola toda. Os momentos de glória teriam fim?

sábado, 11 de outubro de 2008

Capítulo Seis - A Desventura e o Melhor Sorriso

Minha mãe desceu do carro e foi em direção ao guarda, estava começando a chover, então ela não demorou muito e retornou, dizendo que havia um acidente adiante e que logo poderíamos passar.
Dentro do carro falamos sobre o show, contamos a ela a maior parte das experiências, claro, pois nessa idade você nunca conta pra sua mãe as coisas erradas ou diferentes que faz.
Depois de mais ou menos quarenta minutos esperando dentro do veículo quase imóvel a fila de veículos começou a andar vagarosamente, contornando o local do acidente, a chuva se intensificava e segundo o que ouvimos um policial gritar do lado de fora seria difícil tirar os corpos das ferragens. Quando começamos a contornar o local Jéssica gritou alto apavorada.
- O que foi? – pergunto minha mãe tão assustada quanto ela.
- É o Carlos – disse John antes que alguém pudesse dizer algo.
- O Carlos? – perguntei meio abestalhado.
- Sim! É o carro dele ali!
Minha mãe parou o carro naquele instante e disse que ia ver isso e que era para eles não se preocuparem, pois não era nada.
Jessica segurou meu braço com força enquanto chorava. John que tinha ido no banco da frente por sorteio estava de joelhos com a cara colada no vidro tentando enxergar alguma coisa lá fora. Depois de uns dez minutos em silencio, ouvindo apenas o barulho de chuva e o choro baixinho de Jéssica minha mãe voltou. Ela contou que a umas três horas atrás Carlos bateu de frente com um carro tripulado por um homem e duas crianças. Uma das crianças morreu na hora, e os outros dois integrantes do veiculo, juntamente com Carlos haviam sido levados para o hospital do centro.
Pedi a minha mãe se poderíamos ir até lá e ela concordou.
No hospital fomos atrás de noticias e descobrimos que o quadro clinico dele não era nada bom, e que ele estava com sérios ferimentos. Naquele momento estava passando por uma cirurgia complicada devido ao traumatismo craniano que ocorreu no choque.
Falei a John que era melhor avisar James e a mãe dele, e ele concordou
Fomos pelo corredor que dava acesso ao telefone publico na entrada do hospital.
- Obrigado por tudo que você tem feito.
- A não precisa agradecer, é uma situação complicada, ele é seu irmão e tal...
- Não só disso, falo do show, da Lara, de todo o restante. Falo destes últimos dias, de todas as coisas que tem feito.
- Já disse que não precisa agradecer. Vou pegar uns cafés enquanto você telefona.
- Ok
Ele ligou para casa e contou a James o que tinha acontecido enquanto eu tentava equilibrar cinco copos de café nas mãos de uma única vez.
- Pronto já liguei pra eles. estão vindo nos buscar aqui. Deixa eu te ajudar com isso antes que você derrube no chão todo.
- Hehe! Obrigado.
Enquanto voltávamos para o banco onde elas estavam sentadas, fiquei olhando a forma como Jéssica olhava apreensiva para a porta por onde entravam e saiam os enfermeiros. Ela apertava a mão de Lara como se não admitisse que ela saísse dali. Enquanto John parecia mais calmo, estava preocupado mas não se deixara abalar como ela. Estava mais pra curioso do que para preocupado na verdade.
Quando James chegou com a mãe de John eles conversaram por alguns minutos com minha mãe e com um dos médicos que havia acabado de sair para conversar conosco sobre o estado de Carlos e logo depois fui embora. Antes de eu sair, Jéssica me abraçou forte, e eu prometi ligar pra ela no dia seguinte e pedi pra que ela ficasse bem.
- E a sua camisa?
- Guarda ela, eu pego outro dia com você. Você ficou muito bem nela
- Para bobo! – sorriu sem graça – eu gostei dela. Tem teu perfume.
- Eu queria te dar um beijo agora, mas na frente das nossas mães não seria legal, então, até amanha.
- Eu também. Mas amanhã nos falamos. Obrigada por ficar do meu lado e por cuidar de mim hoje lá no show.
Minha mãe me chamou e eu tive que ir, feliz, por ter deixado ao menos um pequeno sorriso no rosto dela. Fomos para casa e minha mãe me perguntou sobre o show, sobre as garotas como era de costume, acho que ela sempre fazia isso só pra me constranger.
Durante a noite pensei muito no show, nas coisas todas que aconteceram, no olhar de Jéssica quando vestiu minha camisa, nas musicas, no acidente. Pensei em cada um daqueles acontecimentos e adormeci sem nem entrar debaixo das cobertas. Dormi olhando para o vidro da janela no meu quarto onde batiam os fortes pingos da chuva que caia.

Acordei muito depois do meio dia. Com um gosto terrível na boca e dor em quase todos os músculos do corpo. Acordei querendo voltar imediatamente a dormir. Minha mãe me esperava para o almoço.
- Bom dia senhor acordo cedo!
- Oi mãe. A noite ontem foi longa pra mim. Desculpe
- Tudo bem, hoje é sábado, é um direito teu. Agora vai lavar o rosto e vamos almoçar.
Depois do almoço e de ajudar minha mãe com a louça resolvi sair pra andar um pouco de skate, como tinha feito com John na primeira vez em que fui a casa dele. Andei por toda a vizinhança, vi criancinhas brincando em um monte de areia, um cachorro velho perseguindo o gato da velha senhora que mora no fim da rua. Vi um homem lavando seu carro e algumas pessoas passeando. Passei por uma ruazinha estreita e íngreme onde as calçadas tem pequenas elevações, arrisquei algumas manobras simples, até porque eu não era nenhum profissional. No caminho de volta contornei a parte de trás do bairro e quando estava quase chegando a minha casa vi um prédio em fase final de construção. Tinha somente quatro andares, e ia ser um edifício residencial. Não era nada elegante. Mas era o primeiro prédio do bairro. Fiquei entusiasmado, porque desde pequeno sempre olhava para os prédios do centro da cidade pensando como um homem normal poderia colocar aqueles vidros lá em cima? Tudo bem que a minha esperança de ser um duende voador foi desmascarada pelo meu tio Rogério que me disse quando eu tinha oito anos que são pessoas normais que fazem esse tipo de coisa.
Voltei pra casa pouco antes das três da tarde e liguei para a casa de John. Foi ele mesmo quem atendeu.
- alô?
- John? Sou eu Miguel. Liguei pra ver como estão vocês, se esta tudo certo.
- Eu estou bem. Dormi até a uma da tarde. Estava tocando violão agora quando você ligou. Nossa mãe ainda esta no hospital, parece que ele esta passando pela segunda cirurgia agora.
- Hm. Espero que tudo corra bem não é? Foi muito feio o acidente. Minha mãe me disse que apareceu até no jornal
- Aham. James disse que viu o carro hoje de manhã. Ele falou que não sabe como Carlos coube no espaço que sobrou para ele na batida.
- Nossa! Mas ele vai se recuperar. Vai dar tudo certo
- E sua mãe? E a Jéssica como elas estão?
- Minha mãe esta bem, na medida do possível. Porque na verdade o Carlos não é bem o que se pode chamar de um bom filho. Como eu te disse no outro dia, ele anda metido com uns rolos, uns esquemas como ele costuma dizer. E minha mãe não gosta muito disso. A Jéssica se trancou no quarto ontem e eu ainda não vi ela. Chamei ela pra almoçar e ela disse que depois vinha e que não estava com fome. Acho que ela esta um pouco abalada com isso. Sabe como é, ela é a única pessoa que acredita no potencial do Carlos. Conversam por horas ali fora as vezes. Ela deve estar chocada com isso.
- Hm e se eu falar com ela? Será que não ajuda?
- Talvez mas ela não vai sair pra atender. Por que você não vem aqui? Podemos fazer alguma coisa e ver mais uns detalhes do trabalho, é pra semana que vem
- Ok, vou levar o violão também.
- Isso! Tenho algumas coisas pra mostrar.
- Combinado. Até mais.
- Até.
Desliguei o telefone e peguei minhas coisas. Para a minha sorte minha mãe estava saindo e me deu uma carona até duas quadras antes da casa de John. A noite ela ficou de me buscar. Então fui a casa dele e toquei a campainha.
Foi Jéssica quem atendeu a porta.
- Ei! O John disse que você estava no quarto
- Eu estava, mas resolvi comer alguma coisa porque meu estomago não parava de reclamar...
- Você esta linda. – sorri simpático.
- É posso imaginar, com essa cara tão amassada quanto o meu cabelo e esse pijama, mas se você diz... entra querido.
- Claro.
Fiz companhia a ela enquanto ela comia um sanduíche. John estava tomando banho. Perguntei a ela como ela se sentia e ela só respondeu que estava preocupada e bastante chocada com tudo isso e que não tinha dormido direito. Quando ela terminou de comer me convidou para ir ao quarto dela ver os desenhos que ela tinha guardados lá.
O quarto de Jéssica poderia ser tudo, menos um quarto de menina. Tinha pôsteres de rock até mais legais do que os de John, uma mesa grande com regulagem de altura e inclinação que ela disse ter comprado vendendo limonada, a cama totalmente desarrumadas, roupas jogadas pelo chão, e em um canto onde a parede era mais funda, uma bateria.
- Você toca bateria?
- Sim, toco um pouco. Carlos me ensinou, ele toca em uma banda que parou a bastante tempo, chamada Eletric Man. Parece que um dos integrantes foi embora e tal. De lá pra cá ele vem me ensinando a tocar.
Andei pelo quarto e comecei a olhar os desenhos dela. Ela tinha feito no mínimo quatro desenhos nesta noite. O primeiro que vi retratava quase com perfeição o guitarrista da Surprise, em cima do palco com as luzes e tudo mais, o segundo que ela me mostrou envergonhada mostrava um cara e uma garota vestindo uma camisa igual a minha no meio de várias pessoas, como no show. Os outros dois desenhos eram de Carlos. Baseados em fotos presas a cada um deles com um clipe.
- Desenhei a noite toda. Faço isso quando não consigo dormir.
- Eles são ótimos! Adorei este de nós d... – fiquei absurdamente sem graça. E notei que ela corou no momento em que eu falei aquilo. – bom, eu pensei esta noite. Provavelmente você diga que é muito nova pra isso, mas eu queria saber... se você, bom...
- Eu o que Miguel?
- Se você... você aceita ser minha namorada?
Ela corou. A pele branca dela deu lugar a um vermelho envergonhado absurdo. Eu fiquei olhando para ela com cara de pateta, pois já tinha sido difícil dizer tudo aquilo. O mais difícil ia ser ouvir um não.
- Bom, você não precisa responder, sabe, eu nem devia ter dito isso. Preciso tomar uma água, eu não estou passando bem. – ela continuava muda apenas olhando pro chão.- então, bom... eu já vou indo...
- Sim. – disse ela ainda com a mesma expressão incrédula, ficando mais vermelha do que antes.
- Ok, então se você prefere que eu vá, estou indo. – Naquele momento senti como se meu figado estivesse sendo esmagado. Era ridículo estar naquela posição.
- NÂO! Bobinho, volta aqui. Eu não disse sim pra você ir. Eu só respondi a tua pergunta... – era incrível como ela conseguia ficar mais vermelha a cada segundo. Mesmo sorrindo.
- Então você aceita?
- Aceito! Aceito sim querido
Esse foi um dos momentos mais felizes do meu dia. Depois da noite anterior ela era tudo que eu mais queria. e ver que isso era recíproco me tornou pelo menos naquele dia o garoto mais feliz do mundo.

Eu só tinha duas coisas a dar a ela naquele momento. Meu melhor sorriso, e o melhor beijo que eu conseguisse dar.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Capitulo Cinco - Guitarras Elétricas


Depois da loucura daquela noite, cheguei à escola super cedo. Peguei o ônibus anterior e nem encontrei com Marcos no caminho. Cheguei no mínimo quarenta minutos antes da aula começar. Fiquei andando de um lado para outro, impaciente. Fui seis vezes ao banheiro pra ver como eu estava, arrumei meus cabelos, desarrumei, arrumei novamente. E assim foi por vinte minutos. Até que vi John, a mãe dele e Jéssica chegando pelo portão. Corri até eles e cumprimentei John. Depois sua mãe e por ultimo dei um abraço forte e demorado em Jéssica.
Ela foi com a mãe até a secretaria tratar da transferência, e quando passaram por nós e estavam subindo a passarela que dava acesso ao bloco principal virou-se e jogou um beijo pra mim. Todo mundo viu e ficou olhando com aquela cara de desconfiança. John cutucou minhas costelas com o cotovelo, e disse que ela contou o que havia acontecido ontem. E que ficou super feliz.
Fomos para a sala de aula e cinco minutos antes de começar as aulas Jéssica estava na porta da sala me chamando. Fui até lá pra falar com ela. Ela me abraçou forte e disse que começava no dia seguinte a estudar neste turno. E que hoje não teria aula a tarde então estava livre. Como eu ia pras aulas de violão de John combinei de ver ela a tarde. Depois de mais uns minutos juntos sua mãe chamou e ela foi sorrindo contente. Para mim era o fim de Tom Arron.

Naquela tarde me diverti como nunca. As aulas de violão estavam cada dia melhores, estávamos começando a tirar juntos as musicas, e eu ensaiava tanto durante a noite que estava aprendendo rápido.
Na sexta feira John apareceu com quatro ingressos para o show da banda Surprise. Uma banda local que quase todo mundo que ouvia rock gostava. Combinamos de ir todos juntos, eu, John, Lara e Jéssica. Meu primeiro show de rock.
Nem sei ao certo como contar sobre esta noite, mas é super relevante, já que foi nesta noite que minha vida mudou e eu descobri o que queria ser quando crescesse.
Pouco antes das dez, ouvi a buzina do carro de James. Me despedi da minha mãe e sai. Fechei a porta, coloquei as chaves no bolso e conferi meus documentos. Estava usando uma camiseta da banda que tinha comprado a uns quinze dias e nunca tinha usado, sobre ela uma camisa de manga comprida xadrez, porque fazia frio. Calça jeans e tênis all star. Quando passei pela porta e a fechei, me dei conta de que estava usando perfume de mais. Um perfume legal, que era do meu pai e eu só usava em ocasiões especiais.
Quando cheguei no carro me surpreendi ao ver Carlos dirigindo. Com os mesmos óculos escuros e uma jaqueta de couro pesada, que faziam ele parecer exageradamente desproporcional, corpulento mas com a cabeça pequena. Entrei no carro e vi John no banco da frente e as duas meninas no banco de traz. Lara estava com o cabelo preso para o lado, também usava uma camiseta da banda e tinha no colo um casado verde escuro.que ela gostava bastante e usava seguidamente. Jessica que tinha seus cabelos não muito compridos e rebeldes apenas tinha tratado de bagunçá-los um pouco mais. Vestia uma blusa com listras horizontais em preto e branco e jaqueta jeans por cima. O perfume dela era perfeitamente calculado. A maquiagem das duas era impecável, estavam lindas. Tão lindas que imaginei que seria difícil andar com elas sem que fossem notadas naquela noite.
Depois de uns vinte minutos chegamos até o Saloom. A casa de shows onde a banda ia tocar. A fila devia ter umas trinta pessoas e em poucos minutos estávamos sendo revistados pelos seguranças e entrando pela primeira vez em um show de rock.
O Saloom era conhecido por três coisas: As belas garçonetes, os bons shows e o fato de ser muito seletivo com seu publico. Portanto assim que entramos tinha uma banda de garagem da cidade vizinha, chamada “Os Nervosos” tocando. Era um punk rock que só podia ser definido mesmo como nervoso. A casa estava pouco cheia, pois ainda era cedo, mas já tinha pessoas fazendo pequenas rodas punk, garotos conversando, gente se beijando e a banda tocando. Jéssica segurou minha mão e fomos para perto do palco. John ficou ao lado de Lara e eu sabia que ele queria poder pegar na mão dela, mas não tinha coragem. Da mesma forma que ela esperava que ele fizesse isso. Eu prestei mais atenção nos beijos e em ficar dançando engraçadamente com Jessica do que nos Nervosos, mas as musicas eram legais, falavam sobre política e sobre diversão de adolescentes. Eu estava tão feliz, ao ver Jessica rindo animada das bobagens que eu fazia dançando que nem ligava para o mundo ao redor.
Por volta das onze e meia a banda parou e tocar, e subiu ao palco a segunda banda. Chamava- se “The Fat” e era muito engraçada. Eram todos garotos gordinhos, principalmente o guitarrista. Usavam roupas iguais, como se fossem irmãos gêmeos. Bermudas largas azul marinho e camiseta laranja com uma bola preta e outra bolinha em cima com dois olhinhos, parecido com um boneco de neve, era o símbolo da banda. A The Fat tinha uma qualidade de som ótima. Mas era mais escrachada, e as vezes até mais romântica. Nessa hora Lara veio falar comigo.
- Miguel, você acha que o John gosta de mim?
- Com certeza. Vocês são melhores amigos. Ele adora você!
- Não. Eu falo em outro sentido, como você e a Jéssica por exemplo...
- Oh! Acho que sim. Tenho quase certeza mas ele é tímido de mais...
- Eu sei. Sabe acho que gosto dele também. Será que ele se sentiria mal se eu falasse alguma coisa?
- Não! Ele deve estar até esperando q você faça isso.
- E o que eu devo fazer?
- Vai lá. E abraça ele. Diz algo que de uma chance pra ele chegar. Depois ele deve se virar. Mas espere até vir uma musica boa pra isso
- Morro de vergonha – riu ela. - mas vou tentar.
Durante o show da The Fat encontramos Marcos com mais uns garotos da escola e a casa encheu completamente. Resolvemos galgar nosso lugar mais a frente. Quando chegamos lá John me chamou para o lado:
- O que a Lara te disse?
- Nada de mais irmãozinho. Você vai ter uma chance. Não desperdice ok?
- Chance?
- Confia em mim?
- Ok então. Olha! A Surprise já vai entrar!
A The Fat saiu do palco sob calorosos aplausos e algumas garçonetes fizeram uma dança animada no palco. Jessica repetia sem parar “olha pra mim! Olha nos meus olhos, não para de olhar pra mim!!”. Era incrível a cara de ciúmes dela e quando fechava o punho fazendo menção de me bater. Mas depois que eu ficava encarando ela sem poder olhar pro palco ela sorria e me beijava.
Depois da dança uma das garçonetes, pegou o microfone e bradou animada:
- Boa noite galera! Com vocês agora a maior sensação dos últimos tempos no rock! Suuuurprise!!!!!!!!
O publico entrou em completo delírio, todos gritavam o nome da banda e batiam palmas. O som de uma das guitarras começou numa introdução arrepiante e a bateria foi entrando aos poucos, a cada batida do bumbo o público gritava “hey, hey, hey!”. Só conseguíamos ver a silhueta do guitarrista bem a nossa frente e uma luz sobre a bateria que contrastava com a fumaça de gelo seco que subia do palco. O vocalista assumiu seu posto, ainda no escuro e começou a cantar no mesmo coro do publico enquanto era incorporado o baixo. E quando enfim a segunda guitarra deu seu primeiro acorde as luzes se acenderam e então pudemos vê-los. O guitarrista que estava a nossa frente era magro e alto, tinha cabelos compridos e um cavanhaque que devia ter uns dez centímetros de comprimento amarrado na ponta por um anel metálico. Era sorridente empunhava a guitarra com leveza. O Vocalista era um cara alto com um cabelo loiro e comprido, todo repicado, vestia uma camiseta exatamente igual a minha, mas usava calças largas e tênis de skate. Sem falar nas correntes e pulseiras e no piercing que ele tinha no sábio inferior. O outro guitarrista era mais comportado, vestia uma calça jeans lisa uma camiseta branca com PAZ escrito em vermelho no peito e uma camisa preta aberta por cima. Era mais baixo do que os outros. Usava um cavanhaque razoável e tinha um cabelo de funcionário de escritório contábil. Todo certinho. O baterista já estava sem camisa quando as luzes se acenderam era forte, tinha tatuagens que cobriam os dois braços inteiros e tinha o cabelo completamente raspado e uma cara de poucos amigos. Nesse momento quando eles tocaram a primeira musica todos estávamos eufóricos pulávamos e gritávamos o refrão como loucos. A energia que era passada ali era algo absolutamente indescritível. Na terceira musica um garoto pulando e dançando sem ver o que estava fazendo derrubou um copo de cerveja em cima da Jéssica. Molhou a garota toda. Antes que eu pudesse falar alguma coisa ele pediu desculpas rapidamente e disse a ela que poderia secar aquilo sem problemas. Ela encheu os olhos de lágrimas, tinha se arrumado tanto pra tomar um banho daqueles.
Levei ela para o lado e dei a ela minha camisa de cima.
- Toma, veste isso.
- Obrigada, mas não precisa, nem molhou tanto...
- Molhou sim, vem vamos trocar isso, eu te acompanho até o banheiro.
- Ok
Ela saiu do banheiro vestindo minha camisa, me olhando com uma cara desajeitada
- Ficou linda – menti carinhosamente
- Se você rir eu te bato – disse torcendo o nariz e franzindo a testa.
- Você esta linda! Acredite.
Ficamos ali por um tempo. Depois voltamos com muita dificuldade até John e Lara, e eu vi o exato momento em que ele teve a chance que esperava.
A banda estava tocando uma de suas melhores canções, ela falava sobre um cara que perdeu tudo em função de alguém mas conseguiu fazer valer a pena cada minuto com aquela pessoa. O vocalista da banda sempre dizia que era uma canção de amor de verdade. Enquanto a musica seguia, Lara abraçou John e olhou nos olhos dele sorrindo esperançosa. John sorria também, pateticamente imóvel sem saber ao certo como abraçá-la. Passei por traz deles e antes que ele pudesse me ver empurrei levemente a cabeça dele em direção a ela. Ela fechou os olhos e chegou mais perto. Então finalmente ele entendeu a deixa e a beijou.
Depois disso nos divertimos muito, a banda tocou uma canção da famosa banda Aerosmith, chamada Crazy. Todos ficamos alucinados, principalmente eu e John, que observávamos as guitarras como uma criança que vê seu brinquedo mais amado. Ou como um cão em frente a uma daquelas assadeiras automáticas de frango. Tentávamos memorizar os locais onde o guitarrista pressionava as cordas. Ficávamos embasbacados com toda a destreza dele. E então o garoto desastrado que derrubou a cerveja em Jéssica veio ao nosso lado e disse:
- Baita solo não?
- Perfeito.
- Eu vi que vocês dois fazem gestos com as mãos como se tocassem algo, vocês tocam?
- Bom estou aprendendo viol...
- Tocamos! Guitarra, nós dois – interrompeu John.
- Hm! Legau eu sou baixista. E estou a fim de montar uma banda. Se interessam?
- Lógico! – falamos juntos eu e John.
- Bom, fiquem com meu numero e me liguem pra gente marcar algo. Meu nome é Victor Oaks.
- Muito prazer, sou John e este é o Miguel.
- Ok, e mais uma vez me desculpem pela cerveja. Me empolgo demais as vezes.
- Tudo bem. – respondi, tentando ser sociável.
- Ok. Agora eu vou indo dar uma volta. Até mais ver.
E ele se foi no meio da multidão. Montar uma banda? John por acaso estava ficando louco?
Eu não sabia ao certo o que ele pensava. Mas estava a disposto a entrar na loucura que fosse, tínhamos descoberto que era plenamente possível confiar nos amigos de olhos fechados as vezes. E o fato de ver aqueles caras em cima do palco com certeza desperta em qualquer um a vontade de ser como eles.
Depois de mais ou menos duas horas de show a banda anunciou a “saidera” e tocou um dos seus maiores sucessos. “Durma com quem você quiser.” Que falava sobre sair de casa, e enfrentar o mundo como um homem de verdade. A letra era mais ou menos assim:
Evite as escadas
Nunca ande nas calçadas
Viva uma vida menos complicada
Faça o que você quiser
Deseje a vontade que você tiver
Durma com quem você quiser.

Largue o mundo
Descalce os chinelos
Se descase de tudo
Faça tudo que você quiser
Deseje a vontade que você tiver
Durma hoje com quem você quiser...

Nunca pensei que estas palavras fossem influenciar a cabeça de John tão fortemente como influenciaram, e mais difícil ainda foi pensar que elas seguramente foram responsáveis por minha vida ter seguido como seguiu depois daquele dia.
Depois daquela musica a banda saiu, e o publico em um coro só começo a pedir mais, gritar por biz, gritar o nome da banda. E então a banda voltou, fazendo mais dois covers sensacionais e tocando duas musicas do novo disco que estavam preparando para lançar. O guitarrista jogou uma palheta que ele usou no show e eu meio instintivamente sem ter a clara intenção de pega-la pulei e a alcancei com a ponta dos dedos.
Saímos de lá e como combinado minha mãe foi nos buscar. Jessica teimou em devolver minha camisa mas não deixei que ela fizesse isso. Disse que pegava outro dia lá. Lara e John pareciam contentes de mais juntos. E eu? Bom eu ainda não acreditava que aquilo estava acontecendo. Mas já tinha decidido o que eu ia pedir no natal.
Nesse momento nosso carro parou no centro em um engarrafamento de uns cento e oitenta metros, minha mãe viu um guarda de trânsito e decidiu ir até lá pra ver o que estava acontecendo.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Capitulo Quatro - Cérebro Contra Músculos.


Eu nunca tinha sentido medo desta forma antes. Uma coisa é você entrar em uma briga para ajudar um amigo. Outra é receber dessa forma o aviso de que um garoto com tamanho de gorila vai estraçalhar sua cara em quinze minutos. Isso mesmo, era o tempo que eu tinha para correr e me esconder, ou para chorar e chamar minha mãe. Porque estas foram as soluções que eu consegui pensar.
Foi nessa hora que John virou o bilhete que Tom tinha me mandado e escreveu algo atraz dele. Mostrou pra mim dando uma piscadela. O bilhete dizia:

“Um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar.”

Ele amassou o bilhete, chamou Tom, e no exato momento em que tom olhou para ele, arremessou com toda força a bolinha que avia feito com o bilhete contra Tom, acertando-o no meio da testa e fazendo a turma toda rir.
A professora parou a explicação e perguntou a John por que ele tinha feito isso. Minha vontade era de esganá-lo, pois isso era uma afronta, ele seria trucidado quando saíssemos da sala. John olhou pra professora com um sorriso sarcástico e disse:
- Porque eu quis. E vou jogar outra ó!
Desta vez ele jogou contra o meu peito mais uma bolinha e novamente piscou para mim.
- Nunca pensei que fosse fazer isso John, mas acho melhor você ir até a direção esfriar essa cabeça. O que deu em você?
- Eu vou mesmo! Essa aula já esta me cansando!
Pegou sua mochila e saiu sorrindo contente. Ele só pode estar louco! Era a única coisa que conseguia pensar. Até que me ocorreu, que se ele escreveu uma resposta para Tom, poderia ter escrito algo para mim. Abri o papel que ele havia jogado em mim, e pra minha surpresa estava escrito:

“Saia normalmente da sala e preste atenção na aula pra me explicar depois. Cérebro contra músculos!”

Eu não sabia o que ele pretendia, mas devia confiar então prestei atenção na aula chata de Biologia, mas não conseguia me acalmar. Quando olhei para o relógio da sala e vi que faltavam dois minutos para tocar o sinal comecei a tremer, o coração acelerava a cada segundo, estava ofegando e suando. Foram os dois minutos mais longos de toda a minha vida.
Quando o sinal tocou, Lara puxou minha mão e disse pra eu ficar tranqüilo. A professora abriu a porta e começamos a sair, tom me empurrou antes que eu chegasse a porta e saiu na minha frente. Depois de recuperar o equilíbrio sai também. E a cena que eu vi era absolutamente inacreditável. John estava bem a frente de Tom que o encarava como se quisesse arrancar-lhe a cabeça. Estavam acompanhados do diretor da escola e do seu Geraldo, o porteiro que a escola vive chamando de segurança. Um senhor baixinho e tão magro que quase voa com o vento. Tem cabelos brancos, mas só dos lados da cabeça e um bigode que parece uma daquelas escovas de lavar roupas. Mal sai na porta e o diretor nos chamou.
- Lerner! Aqui por favor
- Sim diretor?
- Seu amigo John aqui nos mostrou o bilhete que recebeu, e baseado na confusão da ultima sexta-feira resolvemos mudar o senhor Arron de turno e de turma, acabei de telefonar para os pais dele e explicar tudo. Então fique tranqüilo, não admitimos esse tipo de pessoa em nossa escola e sempre que tiver algum problema pode procurar a direção.
- Eu... eu nem sei ao certo o que dizer. Obrigado senhor
- Ok meus jovens, agora preciso ir o almoço nos espera! Sugiro que façam o mesmo, com exceção de você senhor Arron, por favor me acompanhe até a portaria, você vai esperar seu pai lá.
John olhou para mim e dise "cheque mate".
Eu não conseguia acreditar, John tinha no rosto um sorriso que ninguém conseguiria tirar de lá por semanas. Lara começou a rir com ele, e no fim estávamos todos rindo juntos. Decididamente cérebro é uma ótima arma contra músculos.
Todos os alunos da sala que presenciaram a cena estavam perplexos, alguns falavam que era preciso muito mais do que isso para evitar que Tom nos pegasse, outros perguntavam como a gente conseguiu isto. John foi a sensação da escola por uns três dias. Todas as crianças que eram ameaçadas por Tom Arron e obrigadas a pagar o lanche dele ou fazer seus deveres viraram verdadeiros fãs de John Quirriel. E eu? Bom, sentia o maior orgulho do mundo por poder andar ao lado dele.
Naquela semana que se seguiu eu comecei a aprender os primeiros acordes de violão, John era um bom professor, e na sexta-feira eu já estava tocando quase uma musica inteira. Me orgulhava muito disso.
Vi a irmã de John todos os dias em que estive lá, principalmente nos dias em que ela não fazia aulas de desenho. Acabamos conversando e vendo que tínhamos mais em comum do que eu pensava. Ela era engraçada, mas sabia a hora de falar com seriedade, era impecável pra ouvir musicas e me emprestou até alguns CDs das bandas que eu menos conhecia. Eu ficava encantado toda a vez que ela mordia o lápis ou mexia nos cabelos, ela era tímida, mas eu vi ela sorrir umas três vezes. Naquele dia quando nos despedimos e ela beijou meu rosto eu jurei nunca mais lavar a face direita de novo. Ficamos bons amigos, o que pra mim era ótimo. Me sentir perto, me sentir parte da vida dela.

Na segunda-feira da semana seguinte, um dos amigos de Tom veio até a minha sala e entregou um bilhete para mim e para John, onde estava escrito:

“Raios não acertam o mesmo lugar, mas podem cair muito perto!”

O que é que ele estava tentando dizer? O que ele ia fazer? Nenhum de nós sabia, até a noite quando John ligou para a minha casa, dizendo que o raio havia atingido mesmo um lugar próximo.
- Jessica me contou que Tom tem seguido ela essa semana inteira, e hoje ele foi falar com ela. Ela não me disse o que ele falou, mas ela não parece muito bem.
- A gente poderia ligar pra direção da escola, pedir a troca de turno da Jessica, passar ela pro turno da manhã com a gente.
- Mas ela tem as aulas de desenho.
- Coloca ela no telefone.
Depois de uns instantes de telefone quieto ela pegou a chamada
- alô?
- Oi, tudo certo? John me contou sobre o Tom. Você esta bem?
- Não gostaria de falar isso por telefone. Você pode me encontrar naquela praça no centro?
- Mas... – pensei um pouco na possibilidade - ok, meia hora até chegar lá. Mas toma cuidado na rua
- Ta certo querido. Até daqui a pouco.

Ela desligou o telefone. Como eu faria pra sair a essa hora sem minha mãe saber? Eram quase nove da noite, minha mãe ficava na sala vendo televisão até quase meia noite meu quarto era nos fundos do segundo andar. Então resolvi descer pela janela. Amarrei um lençol em outro, e na colcha da cama prendendo a ponta dela no guarda roupas, e fui descendo. Meus braços não agüentavam e quando eu estava a uns dois metros do chão não resisti e larguei o lençol. Cai em cima das flores da minha mãe no jardim, e com o estrondo todos os cães da vizinhança começaram a latir. Corri para o portão e segui pela rua o mais rápido que pude, antes que minha mãe pudesse me ver, caso ela tivesse ouvido o barulho.

Fui a pé até a praça central, nunca tinha saído durante a noite, então não sabia o que eu poderia encontrar. A cada carro que passava eu ficava mais preocupado, mas fui avançando. Era importante e eu estava aprendendo a eleger minhas prioridades.
Cheguei na praça pouco mais de meia hora depois de ter saído de casa, esperei uns cinco minutos até ver Jessica chegando. Havia um casal sentado em um banco do outro lado da praça, um rapaz sentado na beirada do chafariz mexendo com algo nas mãos e dois homens no canto falando baixo. Ela chegou andando de vagar, com cuidado, quando me viu abriu um sorriso pequeno, mas sincero. Correu na minha direção e me abraçou forte. Então me contou sobre tudo que tinha acontecido, sobre as investidas de Tom falando que ela ia ser dele e que ele ia fazer tudo que precisasse pra isso.
- Então passa a estudar de manhã, com a gente.
- Não posso, teria que mudar tudo, as aulas de desenho, as coisas todas
- Muda. Eu vou junto na turma nova com você se precisar. No desenho e tudo. Assim aprendo a desenhar também.
- Haha! Não precisa. Eu preciso mesmo é de um motivo forte pra mudar pro turno da tarde.
Ela falou Isso de uma forma incrivelmente hipnotizadora. A luz da lua, a pesar do frio estava vestida de uma forma tão irresistível, e o cabelo louco dela que balançava com o vendo. Ela era a garota mais “hard” e mais suave tudo ao mesmo tempo. E não sei de onde tive coragem, mas disse a única coisa certa que passou pela minha cabeça naquele momento.
- Eu tenho um motivo forte. Tem uma coisa que poderíamos fazer todos os dias.- disse eu, completamente enrubescido.
- Que motivo?
Sem dizer mais nada, me aproximei dela e beijei seus lábios de vagar enquanto a abraçava. Foi como sonhar o sonho mais legal da minha vida. Eu não tinha beijado muitas garotas, na verdade uma só. Sei que é algo anormal pra um garoto de dezessete anos, mas desta vez foi diferente, principalmente porque ela me abraçou e continuou com o beijo. Ficamos juntos naquele banco na praça por cerca de uma hora e meia, conversando sobre as coisas, sobre a surra que eu e John tínhamos tomado e ainda deixava marcas. Sobre os discos que ela me emprestou, sobre os desenhos que ela fazia.
- Amanha de manha eu começo então? – disse ela sorrindo inacreditavelmente linda.
- Com certeza. Vem vou te levar até o ponto de ônibus.
- É. Eu vou precisar acordar cedo mesmo amanhã.
Levei ela até o ponto de ônibus sem querer que ela fosse embora. O ultimo beijo dela ficou na memória das minhas papilas gustativas por horas. E eu não dormi quase nada naquela noite. Nos momentos em que dormi só consegui sonhar com o que aconteceu. Gritei de cara no travesseiro, pulei, cantei. Estava feliz. Uma felicidade que não aparecia em mim a bastante tempo.
Mal podia esperar pelo dia seguinte pra vê-la denovo.