Minha mãe desceu do carro e foi em direção ao guarda, estava começando a chover, então ela não demorou muito e retornou, dizendo que havia um acidente adiante e que logo poderíamos passar.
Dentro do carro falamos sobre o show, contamos a ela a maior parte das experiências, claro, pois nessa idade você nunca conta pra sua mãe as coisas erradas ou diferentes que faz.
Depois de mais ou menos quarenta minutos esperando dentro do veículo quase imóvel a fila de veículos começou a andar vagarosamente, contornando o local do acidente, a chuva se intensificava e segundo o que ouvimos um policial gritar do lado de fora seria difícil tirar os corpos das ferragens. Quando começamos a contornar o local Jéssica gritou alto apavorada.
- O que foi? – pergunto minha mãe tão assustada quanto ela.
- É o Carlos – disse John antes que alguém pudesse dizer algo.
- O Carlos? – perguntei meio abestalhado.
- Sim! É o carro dele ali!
Minha mãe parou o carro naquele instante e disse que ia ver isso e que era para eles não se preocuparem, pois não era nada.
Jessica segurou meu braço com força enquanto chorava. John que tinha ido no banco da frente por sorteio estava de joelhos com a cara colada no vidro tentando enxergar alguma coisa lá fora. Depois de uns dez minutos em silencio, ouvindo apenas o barulho de chuva e o choro baixinho de Jéssica minha mãe voltou. Ela contou que a umas três horas atrás Carlos bateu de frente com um carro tripulado por um homem e duas crianças. Uma das crianças morreu na hora, e os outros dois integrantes do veiculo, juntamente com Carlos haviam sido levados para o hospital do centro.
Pedi a minha mãe se poderíamos ir até lá e ela concordou.
No hospital fomos atrás de noticias e descobrimos que o quadro clinico dele não era nada bom, e que ele estava com sérios ferimentos. Naquele momento estava passando por uma cirurgia complicada devido ao traumatismo craniano que ocorreu no choque.
Falei a John que era melhor avisar James e a mãe dele, e ele concordou
Fomos pelo corredor que dava acesso ao telefone publico na entrada do hospital.
- Obrigado por tudo que você tem feito.
- A não precisa agradecer, é uma situação complicada, ele é seu irmão e tal...
- Não só disso, falo do show, da Lara, de todo o restante. Falo destes últimos dias, de todas as coisas que tem feito.
- Já disse que não precisa agradecer. Vou pegar uns cafés enquanto você telefona.
- Ok
Ele ligou para casa e contou a James o que tinha acontecido enquanto eu tentava equilibrar cinco copos de café nas mãos de uma única vez.
- Pronto já liguei pra eles. estão vindo nos buscar aqui. Deixa eu te ajudar com isso antes que você derrube no chão todo.
- Hehe! Obrigado.
Enquanto voltávamos para o banco onde elas estavam sentadas, fiquei olhando a forma como Jéssica olhava apreensiva para a porta por onde entravam e saiam os enfermeiros. Ela apertava a mão de Lara como se não admitisse que ela saísse dali. Enquanto John parecia mais calmo, estava preocupado mas não se deixara abalar como ela. Estava mais pra curioso do que para preocupado na verdade.
Quando James chegou com a mãe de John eles conversaram por alguns minutos com minha mãe e com um dos médicos que havia acabado de sair para conversar conosco sobre o estado de Carlos e logo depois fui embora. Antes de eu sair, Jéssica me abraçou forte, e eu prometi ligar pra ela no dia seguinte e pedi pra que ela ficasse bem.
- E a sua camisa?
- Guarda ela, eu pego outro dia com você. Você ficou muito bem nela
- Para bobo! – sorriu sem graça – eu gostei dela. Tem teu perfume.
- Eu queria te dar um beijo agora, mas na frente das nossas mães não seria legal, então, até amanha.
- Eu também. Mas amanhã nos falamos. Obrigada por ficar do meu lado e por cuidar de mim hoje lá no show.
Minha mãe me chamou e eu tive que ir, feliz, por ter deixado ao menos um pequeno sorriso no rosto dela. Fomos para casa e minha mãe me perguntou sobre o show, sobre as garotas como era de costume, acho que ela sempre fazia isso só pra me constranger.
Durante a noite pensei muito no show, nas coisas todas que aconteceram, no olhar de Jéssica quando vestiu minha camisa, nas musicas, no acidente. Pensei em cada um daqueles acontecimentos e adormeci sem nem entrar debaixo das cobertas. Dormi olhando para o vidro da janela no meu quarto onde batiam os fortes pingos da chuva que caia.
Acordei muito depois do meio dia. Com um gosto terrível na boca e dor em quase todos os músculos do corpo. Acordei querendo voltar imediatamente a dormir. Minha mãe me esperava para o almoço.
- Bom dia senhor acordo cedo!
- Oi mãe. A noite ontem foi longa pra mim. Desculpe
- Tudo bem, hoje é sábado, é um direito teu. Agora vai lavar o rosto e vamos almoçar.
Depois do almoço e de ajudar minha mãe com a louça resolvi sair pra andar um pouco de skate, como tinha feito com John na primeira vez em que fui a casa dele. Andei por toda a vizinhança, vi criancinhas brincando em um monte de areia, um cachorro velho perseguindo o gato da velha senhora que mora no fim da rua. Vi um homem lavando seu carro e algumas pessoas passeando. Passei por uma ruazinha estreita e íngreme onde as calçadas tem pequenas elevações, arrisquei algumas manobras simples, até porque eu não era nenhum profissional. No caminho de volta contornei a parte de trás do bairro e quando estava quase chegando a minha casa vi um prédio em fase final de construção. Tinha somente quatro andares, e ia ser um edifício residencial. Não era nada elegante. Mas era o primeiro prédio do bairro. Fiquei entusiasmado, porque desde pequeno sempre olhava para os prédios do centro da cidade pensando como um homem normal poderia colocar aqueles vidros lá em cima? Tudo bem que a minha esperança de ser um duende voador foi desmascarada pelo meu tio Rogério que me disse quando eu tinha oito anos que são pessoas normais que fazem esse tipo de coisa.
Voltei pra casa pouco antes das três da tarde e liguei para a casa de John. Foi ele mesmo quem atendeu.
- alô?
- John? Sou eu Miguel. Liguei pra ver como estão vocês, se esta tudo certo.
- Eu estou bem. Dormi até a uma da tarde. Estava tocando violão agora quando você ligou. Nossa mãe ainda esta no hospital, parece que ele esta passando pela segunda cirurgia agora.
- Hm. Espero que tudo corra bem não é? Foi muito feio o acidente. Minha mãe me disse que apareceu até no jornal
- Aham. James disse que viu o carro hoje de manhã. Ele falou que não sabe como Carlos coube no espaço que sobrou para ele na batida.
- Nossa! Mas ele vai se recuperar. Vai dar tudo certo
- E sua mãe? E a Jéssica como elas estão?
- Minha mãe esta bem, na medida do possível. Porque na verdade o Carlos não é bem o que se pode chamar de um bom filho. Como eu te disse no outro dia, ele anda metido com uns rolos, uns esquemas como ele costuma dizer. E minha mãe não gosta muito disso. A Jéssica se trancou no quarto ontem e eu ainda não vi ela. Chamei ela pra almoçar e ela disse que depois vinha e que não estava com fome. Acho que ela esta um pouco abalada com isso. Sabe como é, ela é a única pessoa que acredita no potencial do Carlos. Conversam por horas ali fora as vezes. Ela deve estar chocada com isso.
- Hm e se eu falar com ela? Será que não ajuda?
- Talvez mas ela não vai sair pra atender. Por que você não vem aqui? Podemos fazer alguma coisa e ver mais uns detalhes do trabalho, é pra semana que vem
- Ok, vou levar o violão também.
- Isso! Tenho algumas coisas pra mostrar.
- Combinado. Até mais.
- Até.
Desliguei o telefone e peguei minhas coisas. Para a minha sorte minha mãe estava saindo e me deu uma carona até duas quadras antes da casa de John. A noite ela ficou de me buscar. Então fui a casa dele e toquei a campainha.
Foi Jéssica quem atendeu a porta.
- Ei! O John disse que você estava no quarto
- Eu estava, mas resolvi comer alguma coisa porque meu estomago não parava de reclamar...
- Você esta linda. – sorri simpático.
- É posso imaginar, com essa cara tão amassada quanto o meu cabelo e esse pijama, mas se você diz... entra querido.
- Claro.
Fiz companhia a ela enquanto ela comia um sanduíche. John estava tomando banho. Perguntei a ela como ela se sentia e ela só respondeu que estava preocupada e bastante chocada com tudo isso e que não tinha dormido direito. Quando ela terminou de comer me convidou para ir ao quarto dela ver os desenhos que ela tinha guardados lá.
O quarto de Jéssica poderia ser tudo, menos um quarto de menina. Tinha pôsteres de rock até mais legais do que os de John, uma mesa grande com regulagem de altura e inclinação que ela disse ter comprado vendendo limonada, a cama totalmente desarrumadas, roupas jogadas pelo chão, e em um canto onde a parede era mais funda, uma bateria.
- Você toca bateria?
- Sim, toco um pouco. Carlos me ensinou, ele toca em uma banda que parou a bastante tempo, chamada Eletric Man. Parece que um dos integrantes foi embora e tal. De lá pra cá ele vem me ensinando a tocar.
Andei pelo quarto e comecei a olhar os desenhos dela. Ela tinha feito no mínimo quatro desenhos nesta noite. O primeiro que vi retratava quase com perfeição o guitarrista da Surprise, em cima do palco com as luzes e tudo mais, o segundo que ela me mostrou envergonhada mostrava um cara e uma garota vestindo uma camisa igual a minha no meio de várias pessoas, como no show. Os outros dois desenhos eram de Carlos. Baseados em fotos presas a cada um deles com um clipe.
- Desenhei a noite toda. Faço isso quando não consigo dormir.
- Eles são ótimos! Adorei este de nós d... – fiquei absurdamente sem graça. E notei que ela corou no momento em que eu falei aquilo. – bom, eu pensei esta noite. Provavelmente você diga que é muito nova pra isso, mas eu queria saber... se você, bom...
- Eu o que Miguel?
- Se você... você aceita ser minha namorada?
Ela corou. A pele branca dela deu lugar a um vermelho envergonhado absurdo. Eu fiquei olhando para ela com cara de pateta, pois já tinha sido difícil dizer tudo aquilo. O mais difícil ia ser ouvir um não.
- Bom, você não precisa responder, sabe, eu nem devia ter dito isso. Preciso tomar uma água, eu não estou passando bem. – ela continuava muda apenas olhando pro chão.- então, bom... eu já vou indo...
- Sim. – disse ela ainda com a mesma expressão incrédula, ficando mais vermelha do que antes.
- Ok, então se você prefere que eu vá, estou indo. – Naquele momento senti como se meu figado estivesse sendo esmagado. Era ridículo estar naquela posição.
- NÂO! Bobinho, volta aqui. Eu não disse sim pra você ir. Eu só respondi a tua pergunta... – era incrível como ela conseguia ficar mais vermelha a cada segundo. Mesmo sorrindo.
- Então você aceita?
- Aceito! Aceito sim querido
Esse foi um dos momentos mais felizes do meu dia. Depois da noite anterior ela era tudo que eu mais queria. e ver que isso era recíproco me tornou pelo menos naquele dia o garoto mais feliz do mundo.
Eu só tinha duas coisas a dar a ela naquele momento. Meu melhor sorriso, e o melhor beijo que eu conseguisse dar.
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