quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Capitulo Tres - Aceitação e Rejeição


Naquele mesmo dia Carlos levantou cedo. Saiu antes de James vir me trazer as chaves. Segundo fiquei sabendo naquela semana, Carlos tinha sérios problemas psicológicos, porque era usuário de drogas pesadas e não encontrava um emprego a mais de dois anos. John contou que Carlos voltou antes das dez da manhã, com o cabelo estranhamente penteado e uma camisa que com certeza ele tinha pegado das coisas do James, dizendo que tinha arrumado um emprego. Fiquei o sábado inteiro em casa, porque minha mãe não quis me deixar sair de casa. Ela dizia que eu não estava em condições de sair. Na noite de sábado John me ligou pra ver como andavam as coisas e combinamos de fazer o trabalho na minha casa no domingo a tarde. Naquela noite comecei a pensar em algumas coisas enquanto escrevia, coisa que eu costumava fazer com certa freqüência. Pensei na minha atitude no dia anterior, no que isso implicaria, mas pensei também no olhar da minha mãe quando lhe contei a história, e das pessoas que olhavam perplexas no momento em que tudo aconteceu. Não sabia o que exatamente ia acontecer, mas sabia que eu tinha feito o que precisava fazer. Afinal eu tinha consciência o suficiente pra saber distinguir entre popularidade e amizade. Acabo de Lembrar que eu ainda não me apresentei. Que descuido. Bom, meu nome é Miguel Lerner, moro sozinho com minha mãe desde os 8 anos, quando meu pai foi embora. Na verdade eu nem me lembro muito dele. Lembro das histórias que ele contava e do violão. Mas eu cresci com um certo rancor, e nunca cheguei a pegar no instrumento que ele deixou em casa, até aquele dia. No domingo acordei bem cedo pra dar um jeito na bagunça que estava meu quarto, tomei café tarde e fiquei de papo com a minha mãe durante o almoço. Eu já quase não sentia dor nenhuma. A tarde quando John, Daniel e Lara chegaram fui prontamente recebê-los. John trazia nas mãos o protótipo de um esquema de funcionamento de circuito elétrico. Ele disse que Carlos tinha ajudado ele a fazer antes de sair de casa, e eu perguntei a ele sobre isso:
- É, ele saiu na sexta feira e voltou dizendo que ia começar a trabalhar, mas era algo em outra cidade, ele falou rápido e eu não entendi ao certo. Colocou tudo que ele conseguiu numa mala e saiu com o carro. - Explicou ele fazendo gestos enquanto falava.
O trabalho seguiu tranqüilo, conseguimos terminar quase tudo antes mesmos da metade da tarde, estava-mos livres dele, mas não sei se era isso que a gente queria. Lembro de ter visto coisas muito interessantes naquele dia, como uma quase confissão de amor quando falamos sobre a briga na escola e John deixou escapar algo do tipo "e você queria que eu fizesse o que? É a garota que eu..." todo mundo olhou pra ele, ele corou, Lara corou mais ainda, Daniel começou a rir..."que eu...eu mais me identifico, minha melhor amiga...". Fui obrigado a rir, o que deixou eles mais corados ainda. Era normal naquela idade, aos dezesseis anos a gente sempre se apaixona loucamente, mas nesse caso, acho que era recíproco, porque a pesar de te ficado vermelha, Lara sorriu confortada, como se quisesse ouvir aquilo pra sempre. Depois do trabalho fomos dar uma volta todos juntos, ate Daniel foi com sua cadeira cheia de adesivos brilhantes. Rimos muito das crianças da vizinhança brincando com uma mangueira de jardim. Jogamos vídeo-game e nessa hora me ocorreu uma idéia. Corri até o quarto da minha mãe e procurei em todos os armários até encontrar o que eu queria. O velho violão que era do meu pai. Jamais tinha dado bola pra ele antes. Era bonito, a cor da madeira era escura e brilhosa, comecei a gostar dele. Voltei até a sala e pedi a John se era muito difícil de tocar. Ele pegou o instrumento e disse:
- Bom... Se você colocar cordas é mais fácil... - Todo mundo riu, era lógico que precisava de cordas!
- Ah claro, mas será que com as cordas, você poderia me ensinar?
- Eu? Vamos tentar.
- Ótimo. Quando eles foram embora no fim da tarde procurei em cada canto daquele armário por cordas de violão. Mas não encontrei nada.
- O que esta fazendo? – perguntou minha mãe se prostrando junto a porta do quarto. –
- Resolvi tocar, a senhora disse que sempre gostou de violão. John vai me ensinar. Mas esta sem cordas veja. –
- hmmmmm - resmungou ela. - Acho que seu pai guardava elas em uma gaveta La em baixo, vamos ver.
Em uma gaveta da sala ela encontrou uma espécie de envelope quadrado que dizia. "Encordoamento completo para violão acústico" e mais umas baboseiras sobre revestimento e elasticidade e capas anti ferrugem que ate hoje não sei pra que serve. Eu já tinha o violão e as cordas. Mal podia esperar pelo dia seguinte. Fui dormir cedo pra acordar logo na segunda-feira.
Acordei na mesma rotina de todos os dias, e quando estava pronto para sair dei um beijo na minha mãe, senti uma coisa estranha quando ela disse pra eu me cuidar. Vi um olhar meio perdido vindo dela. Mas estava atrasado, dei um beijo nela e sai.
No ônibus vi Marcos sentado no mesmo banco de sempre, mas resolvi esperar ele me chamar pra falar com ele. Quando ele chamou eu fui até lá. E sentei ao lado dele na metade do banco que me sobrava novamente.
- Você é um cara de coragem, ou é muito burro, não sei dizer...
- Por que?
- Você tem noção de quem enfrentou semana passada? Amiguinho eu conheço você como um cara legal e entendo todos os teus motivos, mas já te aviso que vai ser bem complicado pro teu lado.
- Eu sei. Mas eu não me importo. Não preciso de pessoas do gênero do Tom. E mais, se precisar eu faço tudo de novo.
- É, minha conclusão é que você não é corajoso, é tolo mesmo haha!
Eu também ri, porque de certa forma ele tinha toda a razão. Mas agora eu tinha novos amigos, pessoas que gostavam de mim, e que eram muito mais interessantes aos meus olhos do que um valentão que teve tudo que quis porque é filho de um vereador.
- E a garota do portão Marcos?
- Ah! Nem me fala disso cara. Fui lá falar com ela, e adivinha, a loca queria o telefone daquele guri loirinho do cabelo engraçado da sala ao lado sabe? Disse que me viu conversar com ele e queria saber se eu tinha o numero do cara.
- Serio? Não da pra acreditar!
- Te juro. Eu to falando que sou feio de mais. – fez uma cara meio triste por uns três segundos depois voltou ao normal. – mas não pense que eu deixei barato! Dei o numero de um vizinho meu, um cara que nunca toma banho hehehe!
- Nosso ponto cara! Preciso chegar cedo na sala hoje, vamos nos apressar.

Descemos do ônibus e eu comecei a sentir o que a maioria dos “nerds” e pessoas excluídas em uma escola. Muita gente evitava olhar pra mim, os que olhavam não me viam com bons olhos, garotas davam risinhos e apontavam e muita gente esbarrava em mim como se eu não existisse. Na sala de aula, antes que eu pudesse colocar minha mochila em cima da mesa alguém colocou um boneco feito com balões cor-de-rosa vestido com uma camiseta com a palavra “bixa” pintada no peito. Eu não poderia sentar lá, então esperei até a professora chegar e me sentei perto de Lara, bem na frente, onde fui vítima de verdadeiros massacres de bolinhas de papel. Mas a única coisa que consegui sentir foi felicidade quando Lara arrancou uma folha de papel do caderno dela e escreveu com uma caligrafia perfeita:

“As vezes é difícil escolher certos caminhos, e o mais difícil é continuar andando neles, mesmo assim os que persistem sempre sobrevivem no final. Obrigada por tudo, e não se deixe abalar por bolinhas de papel, isso só dura cinco dias. Alem do mais, você está perto dos teus amigos. Mais uma vez, obrigada por ajudar o John e por me defender. Nunca vou esquecer disso.”

Jogou o papel sobre minha mesa e sorriu enquanto ela mesma atirou uma bolinha de papel em mim pra me fazer rir.
Eu acabara de descobrir a diferença entre rejeição e aceitação.
A única coisa que me abalou foi outro bilhete que veio de traz, com uma caligrafia nada bonita:

“Amorzinho, te vejo no final da aula, e espero que você não desmaie de novo porque não tem graça te bater se você não chorar.”
Era de Tom, e não parecia ser brincadeira. Lara tomou o bilhete de mim e mostrou para John. Nenhum de nós sabia ao certo o que fazer. Nesse minuto descobri que com a rejeição, vem também a perseguição...

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Capitulo Dois - Ela.

Esperei pela minha mãe por umas duas horas, e quando ela chegou eu tive que explicar por que estava sem minha chave. Acabei mentindo, dizendo que esqueci na casa de John mas que pegaria com ele amanhã.
Durante o jantar pensei como ele deveria estar, se durante a tarde já era obrigado a conviver com aqueles irmãos, o que seria da vida dele a noite?

Depois de jantar, tomei um banho, e fui dormir. Como estava muito cansado, acabei pegando no sono muito rápido e acordei muito cedo no outro dia.

levantei meio moribundo, sem enxergar direito o que estava fazendo, lembrei da tarde do dia anterior, lembrei do rosto de Lara quando sorria falando sobre os mecanismos de condução elétrica mais utilizados na confecção de aparelhos de televisão. Nem sei como consegui prestar atenção no que ela dizia tamanha era a minha vontade de parar o tempo e ficar olhando pra ela. Terminei meu banho e desci para tomar café. Ouvi minha mãe conversando com alguém, desci as escadas para ver quem era, e para a minha surpresa quem estava lá era James, o irmão de John. Mas ele estava saindo no momento em que o vi e não consegui falar com ele. Perguntei a minha mãe quem era e ela disse que era o irmão de um colega meu e que tinha vindo trazer minhas chaves. Peguei as chaves em cima da mesa e sai para a escola sem dar muita bola pra elas, enfiei-as na mochila e entrei no ônibus.
É incrível como me perco dentro de um ônibus quando não é o que pego de costume, todas aquelas pessoas estranhas que parecem me olhar com cara de quem vai gritar. Por sorte ao fundo da sala vi Marcos, um dos meus colegas, um garoto ruivo, gordinho e sorridente que nunca desperdiça piadas. Ele me fez sinal para que eu sentasse ao seu lado. Por educação e porque gostava muito de conversar com ele, sentei-me na metade do banco que restava.
Ouvi-o contar sobre o trabalho com Tina e as gêmeas Klaus. Disse que passou a tarde toda tentando ler um livro sobre o assunto enquanto as três escandalosamente falavam sobre vestidos e maquiagens.
- Você tinha que ver, é angustiante! Elas não paravam de falar com aquelas vozes agudas e irritantes!
- Mas vocês conseguiram fazer o trabalho?
- Que nada! Mal deu pra respirar. Tina começou a mostrar pra elas todos os quarenta e cinco perfumes que ela tem! Você sabe que não sou chegado a essas coisas. Comecei a passar mal.
- E ai? O que aconteceu depois?
- Depois elas começaram a falar sobre o "homem ideal" - disse ele imitando uma voz de garota e fazendo as aspas com os dedos e finalizando com uma risada debochada.
- Homem ideal? - ri eu junto com ele meio sem entender nada, mas adorando a expressão sádica na cara dele.
- Sim! Elas tinham revistas com esses caras "pop" sabe? Ai ficavam falando sobre quem é mais bonito do que quem e tal. Foi o fim pra mim. Peguei minhas coisas e fui embora dizendo que estava passando mal. Nem se despediram direito de mim. Sai sozinho e fui para casa fazer a minha parte do trabalho.
Depois disso a viagem seguiu sem muitas novidades, contei a ele sobre o trabalho e sobre a volta de skate, mas mantive meu segredo como prometi ao John. Também falei a ele que John parecia ser um cara legal, mas ele riu da minha cara e o ponto de ônibus chegou.
Assim que descemos do ônibus Marcos me perguntou se eu achava ele muito feio.
- Não, mas você também não é um exemplo de beleza né. - Respondi eu rindo um pouco. - Por que?
- Nada não, é que eu estava pensando... Ah! Deixa pra la.
- Pensando o que? - Percebi que ele olhava para uma garota que estava em frente ao portão da escola e que ela olhava na nossa direção também. Era uma garota baixinha, e com uma cara um tanto redonda de mais, mas era bonita, tinha olhos muito expressivos e um cabelo cacheado comprido. Acho que já havia visto ela antes. Era da primeira sala do nosso corredor, portando pelo menos dois anos mais nova que eu, já que eu era repetente e sou mais velho que todo mundo na minha sala.
- Ta vendo aquela guria ali? Se chama Nora, eu encontrei ela ontem quando voltava da casa da "senhorita homens lindos", e eu pensei, bom, sei lá, ela é bonita não é?
- Você esta a fim dela? É isso?
- É, digamos que sim. - nisso ele ficou completamente enrubrecido.
Continuamos andando, e eu vi que ela lançou um olhar contente a Marcos quando o viu.
- Vai lá, diz oi pra ela!
- O que? Eu?
- Sim vai logo, lá dentro você me conta isso. Toma, da esse chocolate aqui pra ela.
Dei a ele uma barrinha de chocolate que minha mãe tinha deixado em cima da mesa pela manhã. Ele foi e ofereceu o chocolate a ela, um tanto envergonhado. Ela sorriu e aceitou. Depois disso resolvi deixar que ele se virasse e entrei pelo portão.
Cheguei na sala de aula, e deixei minha mochila sobre a mesa. Resolvi dar uma volta. Fui até o portão para ver o que tinha acontecido com o Marcos, não o vi, mas vi John chegando, e se despedindo de uma garota com um beijo no rosto. Era impressionante, Tinha um cabelo na altura dos ombros com a franja atirada para o lado, olhos verdes, não era muito alta, mas era tão bonita que de repente eu esqueci do mundo e fiquei olhando pra ela. John passou pelo portão e eu lhe disse oi.
- Bom dia, meu irmão levou a tua chave?
- Sim, sim, agradeça a ele por mim, não consegui falar com ele.
- Ele estava com pressa, tinha que trabalhar. Mas pode deixar que eu agradeço sim.
- John, quem era a menina que estava com você agora?
- Menina? ah! Minha irmã, ela estuda a tarde, agora esta indo pra aula de desenho.
- Hm, bonita ela.
- Hehe! Você se identificaria bastante com ela.
Quando chegamos na sala de aula eu já sabia tudo sobre Jéssica, a irmã de John. Sua melhor amiga era a Lara, desenhava muito bem, assim como o irmão, tinha quinze anos, e curtia Beatles e mais um punhado de bandas que eu adorava. Gostava de comer chocolate meio amargo e macarrão instantâneo. Lara abraçou John e me disse somente um oi sorridente. Ela estava particularmente bonita, nada de maquiagens ou enfeites, mas era bom olhar praquela figura, como ela arrumou o cabelo, e com o perfume que usava. Começou a contar a ele sobre um livro que tinha comprado e chegou ontem pelo correio, e os dois interessados o suficiente para esquecer de mim foram até a mesma árvore de sempre ver o tal livro. E eu me sentei no mesmo lugar de sempre, sem conseguir agüentar os assuntos de sempre e as pessoas de sempre durante a aula. Olhava para meus novos amigos, sentados lá no começo da fila, sentia vontade de estar lá, mas não estava inserido no mundo deles.
No final da aula um dos caras que sentava perto de mim Tom Arron, - um cara corpulento e grande, passava de um metro e oitenta de altura, e tinha punhos do tamanho da minha cabeça. Tinha quase dezoito anos, não sei ao certo se ele sabia escrever e tudo que conseguia era por meio de ameaças ou violência – levantou-se antes de todos nós e seguiu em direção a porta da sala.

Enquanto eu saia John perguntou se teria problema em ir a casa de Daniel para trabalharmos no projeto. Disse que estava livre hoje a tarde e que poderia ir se me explicasse onde era. No fim combinamos de nos encontrar na casa dele para depois seguirmos até o Daniel.
E foi então que eu e John Quirriel nos tornamos amigos de fato.
O que aconteceu numa fração de segundos foi o seguinte:
Ouvimos Lara chamar por John um tanto desesperada. Ele correu e eu o segui. Quando chegamos na porta vimos Tom e mais dois garotos a cercando. Tom tentava abraçá-la e ela se esquivava e tentava bater nele. O que não dava muito certo, devido o tamanho e a resistência dele.
John foi calmamente olhando fixo para tom até lá e disse calmamente:
- Larga ela saco de banhas!
- Haha! Olha quem veio defender a princesinha! Sai daqui moleque antes que eu tenha que te colocar dentro do lixeiro de novo.
- Não importa o que vai me acontecer. Mas nela você não toca!
Era impressionante a convicção e a fúria nos olhos de John. Foi então que resolvi intervir.
- Tom, solta a garota e sai daqui. Não vou deixar você fazer isso
- O que você pensa que esta fazendo!
- Defendendo meus amigos!
Foi inevitável notar o espanto geral. John, Lara, Marcos e toda a turma. Eu? Amigo deles? Muita gente caiu na gargalhada. E John disse que eu não precisava fazer aquilo.
- Bom, então primeiro vocês dois vão aprender a não se meter com gente maior do que vocês!! - Nessa hora eu pude sentir o ódio nos olhos dele queimar. Os dois amigos de Tom nos seguraram firmemente, eu entrei em pânico, mas John olhava tranqüilo para Lara.
Ele me olhou por um instante e com um sorriso no rosto fez toda a força que podia para se soltar, quando viu que não ia conseguir moveu-se para o meu lado puxando com ele o garoto que o segurava. Fazendo todos nós ficarmos embolados. E assim ele conseguiu se soltar. Tom olhava perplexo para a cena, sem saber direito o que ele devia fazer. John correu até Lara e disse algo em seu ouvido. Tom não pode detê-la e ela correu para o lado dos banheiros. Tom partiu para cima de John, e com um único soco atirou o garoto no chão. Me desesperei mais uma vez, tentando me soltar, e a ultima coisa que eu ouvi foi:
- E isso é pra aprender que não se deve mudar de lado moleque!!
Acordei cerca de vinte minutos depois, Lara estava ao meu lado, e o diretor da escola olhava intrigado para John que estava sentado á minha esquerda. Ele tinha machucados por toda a face e nos braços, tentei levantar para ver se ele estava se sentindo bem e senti minha perna direita e minhas costelas doerem muito, além de uma forte dor de cabeça. Nisso o diretor falou pra eu não me mexer dali, porque minha mãe estava vindo me buscar.
- Ei John! Como você esta? O que aconteceu?
- A gente tomou uma bela surra, parece que todo mundo resolveu bater principalmente em você por ter me ajudado. Queria te agradecer...
- Que nada cara! Você se tornou meu amigo. Melhor assim os dois machucados do que apenas um de nós não acha?
- Somos mesmo amigos? Quer dizer, amigos de verdade?
- Com certeza.
Lara sorriu e agradeceu a nós dois. Nisso minha mãe chegou e depois de toda a preocupação, ofereci uma carona a John e Lara. Eles aceitaram, e o dia seguiu-se assim, sem mais emoções, até porque não pude sair da cama durante aquela tarde. Meu corpo doía, mas minha alma estava contente. Porque descobri o valor real das coisas. Passei a tarde escrevendo uma única coisa numa folha de papel. JÉSSICA.

sábado, 20 de setembro de 2008

Capítulo Um - Onde eu Perdi as Minhas Chaves?


Tudo começou a uns nove ou dez anos atrás, não sei ao certo. Estudava na mesma escola desse garoto chamado John Quirriel. Nunca tínhamos conversado, e nem sequer trocado um bom dia, eu tinha minha turma, era popular, enquanto ele ficava lá, sentado todos os dias embaixo da mesma árvore lendo um livro u então conversando com sua única amiga Lara. E é justamente ai, que aparece o nosso ponto de encontro.
Lara era uma garota bonita pra idade dela, acabara de fazer quinze anos, tinha cabelos longos que passavam dos ombros, olhos claros, e andava sempre com um jeito de quem sabe o que esta fazendo. Ela era perfeita, em cada movimento. Eu nunca tinha entendido por que ela dava tanta atenção pra um cara como ele e nunca falava com as pessoas que julgávamos legais.
Ele era baixo e magro, como já disse antes, se tinha uma coisa que ele sabia fazer era ler, inclusive era sempre o melhor aluno da turma, não se misturava com os outros garotos da turma e raramente o víamos conversando com alguém que não fosse a Lara.
Lembro que lá pelo final daquele ano, acho que em setembro ou coisa assim, uma de nossas professoras teve a brilhante idéia de separar os chamados "grupinhos" de alunos que já se formavam desde o inicio do ano, fazendo um trabalho em grupo, no qual ela sorteou quem trabalharia ao lado de quem, e também o que cada um teria que fazer no projeto, pra que os mais espertinhos não deixassem o trabalho todo para caras como o John.
O sorteio dos grupos foi realizado e eu fiquei com John e Lara, e mais um menino estranho que tinha um nariz um tanto quanto saliente e era paraplégico, tinha uns quinhentos adezivos de todos os tipos e tamanhos colados em sua cadeira de rodas, mas era sempre bem humorado e divertido, se chamava Daniel. Enquanto meus melhores amigos tiveram que se contentar com as gêmeas Klaus e Tina a garota mais entojada e seletiva da classe.
O trabalho consistia em pesquisar algo sobre equipamentos eletrônicos e suas propriedades. Eu teria que pesquisar sobre as formas de condução de energia, John sobre os sistemas de operação, Lara ficou com as saídas de imagem e resultados e Daniel com os acabamentos externos e isolamentos.
Tínhamos seis dias pra fazer juntos o trabalho que me tiraria dos exames no fim do ano, e que uniria nossas vidas para todo o sempre. Mas como eu iria falar com eles? Pessoas que eu jamais tinha imaginado ter que dirigir a palavra. Nem foi preciso, mal deu o sinal para a saída, e antes que eu conseguisse guardar meu caderno, meus três colegas de grupo vinham até a minha mesa, John tinha em suas mãos um papel dobrado, me encarava com aquelas olheiras profundas com um certo medo no olhar que me agradava muito, ele sabia o seu lugar e isso era muito bom pra mim. Finalmente depois de muito esforço ele disse:
- Este é um mapa pra você ir até a minha casa, vamos começar hoje a tarde, se estiver tudo bem pra você, podemos começar com os livros que já temos e depois a gente vê do que mais vai precisar...
- OK - Disse eu não muito interessado, pegando o mapa das mãos dele e dando uma olhada.

Admito que sem aquele pedaço de papel eu jamais teria chegado lá. John morava do outro lado da cidade, e para a minha sorte todos os outros integrantes do grupo eram vizinhos dele, o que significa que eu cheguei atrasado.
Mal entrei ja fui recebido pela mãe dele na porta e conduzido até seu quarto onde todos ja me esperavam. Ao entrar tive que pensar um pouco para entender o que estava vendo. Acima da cama ele tinha uma coleção memorável de pôsteres de grandes bandas de rock, as mesmas que eu gostava. Sem falar do violão colocado estrategicamente em um canto do quarto e da camiseta que ele vestia, da banda mais legal da cidade, camiseta esta que nem eu tinha.
Durante aquela tarde eu mal consegui me concentrar no que estava fazendo, todos eles se mostravam tão gentis, confiáveis, tão parecidos comigo e tão diferentes das pessoas com as quais eu estava acostumado que comecei a perceber que estava errado sobre aquelas pessoas.

Percebi que John olhava para Lara com um certo amor nos olhos, mas sempre que ela olhava na direção dele ele disfarçava e voltava a se concentrar nos livros.

No fim da tarde quando decidimos terminar, fui convidado pra dar uma volta e conhecer o bairro e as coisas por ali, mas pra minha decepção Lara teve que recusar, dizendo que a mãe dela tinha um compromisso ou coisa deste tipo. Acabou que Daniel também foi antes para casa e ficamos só eu e John ali.

Começamos a conversar sobre os pôsteres e a camiseta dele, ele me mostrou dois ingressos que tinha para o show da banda que ia ser na próxima semana, e disse que eu poderia ir com ele.

Então ele me perguntou o que eu achava de darmos uma volta de skate, e eu como adorava tal atividade respondi que gostaria muito. Mal pude terminar de falar e John me atirou nos braços um skate com o desenho de um sapo na parte de baixo que mais tarde descobri que foi feito por ele próprio.

Andamos cerca de duas horas pelo bairro dele, um bairro sem muitas casas com mais de um andar, nada de muito especial além da pequena pracinha onde tinha um chafariz e uns corrimões bons pra gente saltar. Coisa esta que ele fazia muito melhor do que eu, sempre o tinha visto nas aulas de educação física, nunca jogava futebol porque não sabia jogar, ele ficava jogando xadrez com Daniel nas arquibancadas do ginásio. Mas agora dominava completamente as quatro rodinhas, fazia manobras legais e tinha seu próprio estilo, ele andava com uma certa classe, e confesso que isso me admirou muito.

Pouco antes de escurecer, resolvemos voltar pra casa mas eu não entendi ao certo o por que da expressão desconcertada no rosto dele quando eu falei que precisava ir pra casa.

Na metade do caminho um carro velho com a pintura toda corroída, os vidros trincados e sujos e uma das rodas sem calota passou lentamente ao nosso lado. John desceu do skate e começou a caminhar, fiz o mesmo e perguntei a ele se estava tudo bem, e ele respondeu que sim, me puxando para um canto da calçada onde a sobra de uma das casas se projetava sobre a rua.

Perguntei a ele o que estava acontecendo, e ele simplesmente me pediu que não contasse a ninguém as coisas que provavelmente veria quando voltássemos.

Eu prometi mas perguntei a ele quem eram as pessoas no carro.

- Meus irmãos – respondeu ele em tom meio assustado.
- E porque se escondeu deles?
- Você já vai entender cara. Disse ele com um ar suspeito, indo em direção a casa dele.
Quando entramos o carro estava em frente a casa dele, estacionado porcamente sobre a calçada. John entrou na frente e eu o segui, ao passarmos pela sala que dava acesso ao quarto dele pude ver os dois irmãos mais velhos dele, um deles com cabelos compridos vestindo uma camiseta preta cujo aspecto nunca tinha conhecido uma maquina de lavar. Era magro e estranho, fumava um cigarro fedorento e usava óculos escuros desproporcionais ao tamanho do rosto dele. O outro mais encorpado e forte, cabelos raspados e uma cara de segurança malvado, estava em pé em frente a porta, mas ao me ver se apresentou e apertou calorosamente minha mão.
- Olá, sou James, irmão do John, você deve ser o colega dele que veio fazer o trabalho não é?
- Isso mesmo, agora ele esta de saída James deixe a gente passar por favor.
Achei interessante o comportamento dele, apesar do queiro forte de maconha que se precipitava quando falava, James parecia ser o irmão legal de John, enquanto o outro que mais tarde John me disse que se chamava Carlos nem se quer notou a presença de um estranho ali.

No quarto de John as coisas estavam todas desarrumadas, nossas mochilas jogadas, livros com páginas arrancadas e toda a zueira que se possa imaginar. John olhou pra aquela cena com uma cara de quem não estava acreditando no que via, depois olhou pra mim com cara de quem ia começar a chorar a qualquer momento, e depois de uns segundos emudecido ele conseguiu dizer:

- Desculpe, vem vamos juntar suas coisas, amanhã conversamos melhor na escola.1
Sentindo que era melhor assim, resolvi fazer o que ele disse. John não dizia uma única palavra no caminho até o ponto de ônibus. E eu não era intimo o bastante pra saber o que dizer. Então antes de entrar no ônibus só consegui agradecer pelo passeio e me despedi dele.

Meia hora depois, chegando em frente a minha casa, fui procurar minhas chaves na mochila e não as encontrei, naquela hora veio nem minha cabeça aquela zona toda e também minha mãe dizendo que chegariam mais tarde hoje porque ela tinha uma reunião.

E agora? Onde estariam minhas chaves?
O que me resta é sentar e esperar.