
Tudo começou a uns nove ou dez anos atrás, não sei ao certo. Estudava na mesma escola desse garoto chamado John Quirriel. Nunca tínhamos conversado, e nem sequer trocado um bom dia, eu tinha minha turma, era popular, enquanto ele ficava lá, sentado todos os dias embaixo da mesma árvore lendo um livro u então conversando com sua única amiga Lara. E é justamente ai, que aparece o nosso ponto de encontro.
Lara era uma garota bonita pra idade dela, acabara de fazer quinze anos, tinha cabelos longos que passavam dos ombros, olhos claros, e andava sempre com um jeito de quem sabe o que esta fazendo. Ela era perfeita, em cada movimento. Eu nunca tinha entendido por que ela dava tanta atenção pra um cara como ele e nunca falava com as pessoas que julgávamos legais.
Ele era baixo e magro, como já disse antes, se tinha uma coisa que ele sabia fazer era ler, inclusive era sempre o melhor aluno da turma, não se misturava com os outros garotos da turma e raramente o víamos conversando com alguém que não fosse a Lara.
Lembro que lá pelo final daquele ano, acho que em setembro ou coisa assim, uma de nossas professoras teve a brilhante idéia de separar os chamados "grupinhos" de alunos que já se formavam desde o inicio do ano, fazendo um trabalho em grupo, no qual ela sorteou quem trabalharia ao lado de quem, e também o que cada um teria que fazer no projeto, pra que os mais espertinhos não deixassem o trabalho todo para caras como o John.
O sorteio dos grupos foi realizado e eu fiquei com John e Lara, e mais um menino estranho que tinha um nariz um tanto quanto saliente e era paraplégico, tinha uns quinhentos adezivos de todos os tipos e tamanhos colados em sua cadeira de rodas, mas era sempre bem humorado e divertido, se chamava Daniel. Enquanto meus melhores amigos tiveram que se contentar com as gêmeas Klaus e Tina a garota mais entojada e seletiva da classe.
O trabalho consistia em pesquisar algo sobre equipamentos eletrônicos e suas propriedades. Eu teria que pesquisar sobre as formas de condução de energia, John sobre os sistemas de operação, Lara ficou com as saídas de imagem e resultados e Daniel com os acabamentos externos e isolamentos.
Tínhamos seis dias pra fazer juntos o trabalho que me tiraria dos exames no fim do ano, e que uniria nossas vidas para todo o sempre. Mas como eu iria falar com eles? Pessoas que eu jamais tinha imaginado ter que dirigir a palavra. Nem foi preciso, mal deu o sinal para a saída, e antes que eu conseguisse guardar meu caderno, meus três colegas de grupo vinham até a minha mesa, John tinha em suas mãos um papel dobrado, me encarava com aquelas olheiras profundas com um certo medo no olhar que me agradava muito, ele sabia o seu lugar e isso era muito bom pra mim. Finalmente depois de muito esforço ele disse:
- Este é um mapa pra você ir até a minha casa, vamos começar hoje a tarde, se estiver tudo bem pra você, podemos começar com os livros que já temos e depois a gente vê do que mais vai precisar...
- OK - Disse eu não muito interessado, pegando o mapa das mãos dele e dando uma olhada.
Admito que sem aquele pedaço de papel eu jamais teria chegado lá. John morava do outro lado da cidade, e para a minha sorte todos os outros integrantes do grupo eram vizinhos dele, o que significa que eu cheguei atrasado.
Mal entrei ja fui recebido pela mãe dele na porta e conduzido até seu quarto onde todos ja me esperavam. Ao entrar tive que pensar um pouco para entender o que estava vendo. Acima da cama ele tinha uma coleção memorável de pôsteres de grandes bandas de rock, as mesmas que eu gostava. Sem falar do violão colocado estrategicamente em um canto do quarto e da camiseta que ele vestia, da banda mais legal da cidade, camiseta esta que nem eu tinha.
Durante aquela tarde eu mal consegui me concentrar no que estava fazendo, todos eles se mostravam tão gentis, confiáveis, tão parecidos comigo e tão diferentes das pessoas com as quais eu estava acostumado que comecei a perceber que estava errado sobre aquelas pessoas.
Percebi que John olhava para Lara com um certo amor nos olhos, mas sempre que ela olhava na direção dele ele disfarçava e voltava a se concentrar nos livros.
No fim da tarde quando decidimos terminar, fui convidado pra dar uma volta e conhecer o bairro e as coisas por ali, mas pra minha decepção Lara teve que recusar, dizendo que a mãe dela tinha um compromisso ou coisa deste tipo. Acabou que Daniel também foi antes para casa e ficamos só eu e John ali.
Começamos a conversar sobre os pôsteres e a camiseta dele, ele me mostrou dois ingressos que tinha para o show da banda que ia ser na próxima semana, e disse que eu poderia ir com ele.
Então ele me perguntou o que eu achava de darmos uma volta de skate, e eu como adorava tal atividade respondi que gostaria muito. Mal pude terminar de falar e John me atirou nos braços um skate com o desenho de um sapo na parte de baixo que mais tarde descobri que foi feito por ele próprio.
Andamos cerca de duas horas pelo bairro dele, um bairro sem muitas casas com mais de um andar, nada de muito especial além da pequena pracinha onde tinha um chafariz e uns corrimões bons pra gente saltar. Coisa esta que ele fazia muito melhor do que eu, sempre o tinha visto nas aulas de educação física, nunca jogava futebol porque não sabia jogar, ele ficava jogando xadrez com Daniel nas arquibancadas do ginásio. Mas agora dominava completamente as quatro rodinhas, fazia manobras legais e tinha seu próprio estilo, ele andava com uma certa classe, e confesso que isso me admirou muito.
Pouco antes de escurecer, resolvemos voltar pra casa mas eu não entendi ao certo o por que da expressão desconcertada no rosto dele quando eu falei que precisava ir pra casa.
Na metade do caminho um carro velho com a pintura toda corroída, os vidros trincados e sujos e uma das rodas sem calota passou lentamente ao nosso lado. John desceu do skate e começou a caminhar, fiz o mesmo e perguntei a ele se estava tudo bem, e ele respondeu que sim, me puxando para um canto da calçada onde a sobra de uma das casas se projetava sobre a rua.
Perguntei a ele o que estava acontecendo, e ele simplesmente me pediu que não contasse a ninguém as coisas que provavelmente veria quando voltássemos.
Eu prometi mas perguntei a ele quem eram as pessoas no carro.
- Meus irmãos – respondeu ele em tom meio assustado.
- E porque se escondeu deles?
- Você já vai entender cara. Disse ele com um ar suspeito, indo em direção a casa dele.
Quando entramos o carro estava em frente a casa dele, estacionado porcamente sobre a calçada. John entrou na frente e eu o segui, ao passarmos pela sala que dava acesso ao quarto dele pude ver os dois irmãos mais velhos dele, um deles com cabelos compridos vestindo uma camiseta preta cujo aspecto nunca tinha conhecido uma maquina de lavar. Era magro e estranho, fumava um cigarro fedorento e usava óculos escuros desproporcionais ao tamanho do rosto dele. O outro mais encorpado e forte, cabelos raspados e uma cara de segurança malvado, estava em pé em frente a porta, mas ao me ver se apresentou e apertou calorosamente minha mão.
- Olá, sou James, irmão do John, você deve ser o colega dele que veio fazer o trabalho não é?
- Isso mesmo, agora ele esta de saída James deixe a gente passar por favor.
Achei interessante o comportamento dele, apesar do queiro forte de maconha que se precipitava quando falava, James parecia ser o irmão legal de John, enquanto o outro que mais tarde John me disse que se chamava Carlos nem se quer notou a presença de um estranho ali.
No quarto de John as coisas estavam todas desarrumadas, nossas mochilas jogadas, livros com páginas arrancadas e toda a zueira que se possa imaginar. John olhou pra aquela cena com uma cara de quem não estava acreditando no que via, depois olhou pra mim com cara de quem ia começar a chorar a qualquer momento, e depois de uns segundos emudecido ele conseguiu dizer:
- Desculpe, vem vamos juntar suas coisas, amanhã conversamos melhor na escola.1
Sentindo que era melhor assim, resolvi fazer o que ele disse. John não dizia uma única palavra no caminho até o ponto de ônibus. E eu não era intimo o bastante pra saber o que dizer. Então antes de entrar no ônibus só consegui agradecer pelo passeio e me despedi dele.
Meia hora depois, chegando em frente a minha casa, fui procurar minhas chaves na mochila e não as encontrei, naquela hora veio nem minha cabeça aquela zona toda e também minha mãe dizendo que chegariam mais tarde hoje porque ela tinha uma reunião.
E agora? Onde estariam minhas chaves?
O que me resta é sentar e esperar.
4 comentários:
Muitooo bom... Parabens cara
quero ver a proxima parte *-*]
aaaaaaaaaah
q envolvente =D
bah agora eu to curiosa...
sabe juh vc parece se identificar mais com o john tipo não q passe por coisas do tipo em casa,mas vc parece ser do tipo q qndo mais novo era mais reservado e um cara q gosta de um livro =P
vamos ver.. me avisa qndo postar outra parte
bjoo
Eu fico imaginando o Quarto, os pôsters, a camiseta e o violão. agusastes minha imaginação.
esperando o segundo capitulo.
besito
é o tipo de história-polvo: vai criando tentáculos e envolvendo, envolvendo...pra quando o segundo?
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