quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Capitulo Tres - Aceitação e Rejeição


Naquele mesmo dia Carlos levantou cedo. Saiu antes de James vir me trazer as chaves. Segundo fiquei sabendo naquela semana, Carlos tinha sérios problemas psicológicos, porque era usuário de drogas pesadas e não encontrava um emprego a mais de dois anos. John contou que Carlos voltou antes das dez da manhã, com o cabelo estranhamente penteado e uma camisa que com certeza ele tinha pegado das coisas do James, dizendo que tinha arrumado um emprego. Fiquei o sábado inteiro em casa, porque minha mãe não quis me deixar sair de casa. Ela dizia que eu não estava em condições de sair. Na noite de sábado John me ligou pra ver como andavam as coisas e combinamos de fazer o trabalho na minha casa no domingo a tarde. Naquela noite comecei a pensar em algumas coisas enquanto escrevia, coisa que eu costumava fazer com certa freqüência. Pensei na minha atitude no dia anterior, no que isso implicaria, mas pensei também no olhar da minha mãe quando lhe contei a história, e das pessoas que olhavam perplexas no momento em que tudo aconteceu. Não sabia o que exatamente ia acontecer, mas sabia que eu tinha feito o que precisava fazer. Afinal eu tinha consciência o suficiente pra saber distinguir entre popularidade e amizade. Acabo de Lembrar que eu ainda não me apresentei. Que descuido. Bom, meu nome é Miguel Lerner, moro sozinho com minha mãe desde os 8 anos, quando meu pai foi embora. Na verdade eu nem me lembro muito dele. Lembro das histórias que ele contava e do violão. Mas eu cresci com um certo rancor, e nunca cheguei a pegar no instrumento que ele deixou em casa, até aquele dia. No domingo acordei bem cedo pra dar um jeito na bagunça que estava meu quarto, tomei café tarde e fiquei de papo com a minha mãe durante o almoço. Eu já quase não sentia dor nenhuma. A tarde quando John, Daniel e Lara chegaram fui prontamente recebê-los. John trazia nas mãos o protótipo de um esquema de funcionamento de circuito elétrico. Ele disse que Carlos tinha ajudado ele a fazer antes de sair de casa, e eu perguntei a ele sobre isso:
- É, ele saiu na sexta feira e voltou dizendo que ia começar a trabalhar, mas era algo em outra cidade, ele falou rápido e eu não entendi ao certo. Colocou tudo que ele conseguiu numa mala e saiu com o carro. - Explicou ele fazendo gestos enquanto falava.
O trabalho seguiu tranqüilo, conseguimos terminar quase tudo antes mesmos da metade da tarde, estava-mos livres dele, mas não sei se era isso que a gente queria. Lembro de ter visto coisas muito interessantes naquele dia, como uma quase confissão de amor quando falamos sobre a briga na escola e John deixou escapar algo do tipo "e você queria que eu fizesse o que? É a garota que eu..." todo mundo olhou pra ele, ele corou, Lara corou mais ainda, Daniel começou a rir..."que eu...eu mais me identifico, minha melhor amiga...". Fui obrigado a rir, o que deixou eles mais corados ainda. Era normal naquela idade, aos dezesseis anos a gente sempre se apaixona loucamente, mas nesse caso, acho que era recíproco, porque a pesar de te ficado vermelha, Lara sorriu confortada, como se quisesse ouvir aquilo pra sempre. Depois do trabalho fomos dar uma volta todos juntos, ate Daniel foi com sua cadeira cheia de adesivos brilhantes. Rimos muito das crianças da vizinhança brincando com uma mangueira de jardim. Jogamos vídeo-game e nessa hora me ocorreu uma idéia. Corri até o quarto da minha mãe e procurei em todos os armários até encontrar o que eu queria. O velho violão que era do meu pai. Jamais tinha dado bola pra ele antes. Era bonito, a cor da madeira era escura e brilhosa, comecei a gostar dele. Voltei até a sala e pedi a John se era muito difícil de tocar. Ele pegou o instrumento e disse:
- Bom... Se você colocar cordas é mais fácil... - Todo mundo riu, era lógico que precisava de cordas!
- Ah claro, mas será que com as cordas, você poderia me ensinar?
- Eu? Vamos tentar.
- Ótimo. Quando eles foram embora no fim da tarde procurei em cada canto daquele armário por cordas de violão. Mas não encontrei nada.
- O que esta fazendo? – perguntou minha mãe se prostrando junto a porta do quarto. –
- Resolvi tocar, a senhora disse que sempre gostou de violão. John vai me ensinar. Mas esta sem cordas veja. –
- hmmmmm - resmungou ela. - Acho que seu pai guardava elas em uma gaveta La em baixo, vamos ver.
Em uma gaveta da sala ela encontrou uma espécie de envelope quadrado que dizia. "Encordoamento completo para violão acústico" e mais umas baboseiras sobre revestimento e elasticidade e capas anti ferrugem que ate hoje não sei pra que serve. Eu já tinha o violão e as cordas. Mal podia esperar pelo dia seguinte. Fui dormir cedo pra acordar logo na segunda-feira.
Acordei na mesma rotina de todos os dias, e quando estava pronto para sair dei um beijo na minha mãe, senti uma coisa estranha quando ela disse pra eu me cuidar. Vi um olhar meio perdido vindo dela. Mas estava atrasado, dei um beijo nela e sai.
No ônibus vi Marcos sentado no mesmo banco de sempre, mas resolvi esperar ele me chamar pra falar com ele. Quando ele chamou eu fui até lá. E sentei ao lado dele na metade do banco que me sobrava novamente.
- Você é um cara de coragem, ou é muito burro, não sei dizer...
- Por que?
- Você tem noção de quem enfrentou semana passada? Amiguinho eu conheço você como um cara legal e entendo todos os teus motivos, mas já te aviso que vai ser bem complicado pro teu lado.
- Eu sei. Mas eu não me importo. Não preciso de pessoas do gênero do Tom. E mais, se precisar eu faço tudo de novo.
- É, minha conclusão é que você não é corajoso, é tolo mesmo haha!
Eu também ri, porque de certa forma ele tinha toda a razão. Mas agora eu tinha novos amigos, pessoas que gostavam de mim, e que eram muito mais interessantes aos meus olhos do que um valentão que teve tudo que quis porque é filho de um vereador.
- E a garota do portão Marcos?
- Ah! Nem me fala disso cara. Fui lá falar com ela, e adivinha, a loca queria o telefone daquele guri loirinho do cabelo engraçado da sala ao lado sabe? Disse que me viu conversar com ele e queria saber se eu tinha o numero do cara.
- Serio? Não da pra acreditar!
- Te juro. Eu to falando que sou feio de mais. – fez uma cara meio triste por uns três segundos depois voltou ao normal. – mas não pense que eu deixei barato! Dei o numero de um vizinho meu, um cara que nunca toma banho hehehe!
- Nosso ponto cara! Preciso chegar cedo na sala hoje, vamos nos apressar.

Descemos do ônibus e eu comecei a sentir o que a maioria dos “nerds” e pessoas excluídas em uma escola. Muita gente evitava olhar pra mim, os que olhavam não me viam com bons olhos, garotas davam risinhos e apontavam e muita gente esbarrava em mim como se eu não existisse. Na sala de aula, antes que eu pudesse colocar minha mochila em cima da mesa alguém colocou um boneco feito com balões cor-de-rosa vestido com uma camiseta com a palavra “bixa” pintada no peito. Eu não poderia sentar lá, então esperei até a professora chegar e me sentei perto de Lara, bem na frente, onde fui vítima de verdadeiros massacres de bolinhas de papel. Mas a única coisa que consegui sentir foi felicidade quando Lara arrancou uma folha de papel do caderno dela e escreveu com uma caligrafia perfeita:

“As vezes é difícil escolher certos caminhos, e o mais difícil é continuar andando neles, mesmo assim os que persistem sempre sobrevivem no final. Obrigada por tudo, e não se deixe abalar por bolinhas de papel, isso só dura cinco dias. Alem do mais, você está perto dos teus amigos. Mais uma vez, obrigada por ajudar o John e por me defender. Nunca vou esquecer disso.”

Jogou o papel sobre minha mesa e sorriu enquanto ela mesma atirou uma bolinha de papel em mim pra me fazer rir.
Eu acabara de descobrir a diferença entre rejeição e aceitação.
A única coisa que me abalou foi outro bilhete que veio de traz, com uma caligrafia nada bonita:

“Amorzinho, te vejo no final da aula, e espero que você não desmaie de novo porque não tem graça te bater se você não chorar.”
Era de Tom, e não parecia ser brincadeira. Lara tomou o bilhete de mim e mostrou para John. Nenhum de nós sabia ao certo o que fazer. Nesse minuto descobri que com a rejeição, vem também a perseguição...

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